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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Justiça à Venda: O Mercado das Sentenças

Crédito: tjms

Quem nos defenderá quando os guardiões das leis traem a confiança que neles depositamos?



O que deveria ser um dos pilares da nossa sociedade, a justiça, infelizmente, parece estar à mercê de interesses suspeitos. Recentemente, surpreendeu-nos a notícia do afastamento de cinco desembargadores pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), entre eles Sérgio Fernandes Martins, presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ-MS), Vladimir Abreu da Silva, Alexandre Aguiar Bastos, Sideni Soncini Pimentel e Marco José de Brito Rodrigues. O motivo? Suspeita de venda de sentenças. A ironia é palpável: aqueles que deveriam garantir o cumprimento das leis estão, supostamente, lucrando com sua transgressão.

A venda de sentenças não apenas abala a credibilidade do sistema judiciário, mas coloca em dúvida a esperança de milhares de brasileiros que acreditam no poder da justiça. Como podemos confiar em um tribunal onde as decisões são, supostamente, leiloadas para quem oferecer mais? Esses casos de corrupção entre membros da mais alta corte estadual revelam o quanto nossa sociedade ainda está vulnerável à corrupção, mesmo nas esferas onde a ética deveria ser inegociável.

Para nós, o povo, resta a amargura de testemunhar o colapso de uma das instituições mais importantes da democracia. Quando a justiça se vende, o que resta de esperança para aqueles que dependem dela? O poder judiciário, que deveria ser o último recurso contra injustiças, torna-se mais uma instância onde o dinheiro fala mais alto. É difícil não se perguntar: quem nos defenderá quando os guardiões das leis traem a confiança que neles depositamos?

O episódio envolvendo esses desembargadores levanta questões importantes sobre a necessidade de reformas profundas em nosso sistema judicial. A punição desses suspeitos deve ser exemplar, para que outros não pensem que podem agir da mesma maneira impunemente. Mais do que nunca, é essencial que a justiça retome seu papel fundamental na sociedade: o de ser um instrumento imparcial e incorruptível a serviço do povo. Enquanto isso, continuamos à mercê de um sistema que, ao que parece, tem seu preço.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Juristas criam grupo multirreligioso para combater a intolerância


A ideia surgiu por conta da ação que tenta retirar 16 vídeos considerados ofensivos contra religiões afro-brasileiras
por Leiliane Roberta Lopes


Juristas criam grupo multireligioso para combater a intolerância  
Juristas criam grupo multirreligioso para combater a intolerância

Um grupo de juristas de diversas religiões foi criado para combater a intolerância religiosa. Integrantes da Igreja Católica, Umbanda, Candomblé, Budismo, Islamismo e Judaísmo se reuniram em um templo de candomblé na Zona Norte do Rio de Janeiro na última segunda-feira (16) para dar início aos trabalhos.

A ideia de criar um grupo de juristas multirreligiosos surgiu por conta da polêmica criada pela decisão do juiz Eugênio Rosa, da Justiça Federal, que afirmou em sentença que umbanda e candomblé não são religiões.

Apesar de ter voltado atrás de sua sentença a respeito do que é religião, o magistrado levantou outra discussão por ter negado a retirada de 16 vídeos do Youtube que são considerados ofensivos contra religiões afro-brasileiras.

A decisão foi cancelada através de uma liminar que resolveu obrigar o Google a retirar os vídeos do ar sob pena de pagamento de multa no valor de R$50 mil diários em caso de descumprimento.

Com a criação desse grupo de juristas, casos como esse e outros relacionados a intolerância religiosa estarão sendo analisados, assim como as decisões junto ao Judiciário.A próxima etapa do grupo recém criado é tentar encontrar representantes dos evangélicos, de acordo com o jornal O Globo os procurados pelo juristas não responderam positivamente em relação a esse encontro.

O interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos, tenta debater com lideranças evangélicas, principalmente de igrejas neopentecostais, já que muitos dos vídeos que estão no processo contra o Google são dessas denominações.

“Com o grupo, começaremos a monitorar outras agressões e casos de preconceito que possam surgir. Finalmente, poderemos agir de forma unida”, disse Ivanir.

Crédito da matéria (inclusive foto): http://noticias.gospelprime.com.br

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Judicialização da política ameaça a democracia


O artigo abaixo de Paulo Moreira Leite trata de um dos assuntos mais explosivos da política brasileira: a sua judicialização. É explosivo porque ameaça a democracia. A soberania pertence aos representantes do povo.
Eu gostaria apenas de fazer uma observação sobre um ponto do artigo, em que Paulo fala sobre o fim da CPMF, que teria tirado R$ 20 bilhões da saúde. Na verdade, eram R$ 40 bilhões.
O imposto foi extinto em dezembro de 2007. Ou seja, de 2008 a 2013, foram seis anos sem CPMF. Se usarmos o valor de R$ 40 bilhões/ ano, o montante cortado da Saúde pelos parlamentares que votaram contra a prorrogação do imposto corresponderia a R$ 240 bilhões.
Mas na verdade é muito mais, porque a CPMF incidia sobre a atividade econômica. De 2008 para cá, o Brasil cresceu muito, então a CPMF possivelmente já estaria arrecadando mais de R$ 40 bilhões por ano. O corte de gastos na saúde, consequência do fim da CPMF, deve corresponder a mais de R$ 300 bilhões.
R$ 300 bilhões que poderiam ter sido usados em políticas públicas de saúde. Gostaria de ter visto um protesto popular contra o fim da CPMF… E outro protesto pedindo a sua volta.
Lembrando: o fim da CPMF aconteceu por uma união política entre mídia (que forneceu os subsídios para a votação), senadores da direita política e o… PSOL, na figura de Heloísa Helena, que comemorou (ver foto abaixo) a “vitória” em foto histórica, ao lado da xepa mais reacionária do Senado.
O LADO POLITICO DA JUDICALIZAÇÀO
Liminar contra IPTU foi terceira intervenção contra prerrogativa de Fernando Haddad
Por Paulo Moreira Leite, em seu blog.
No esforço para convencer os brasileiros de que o Poder Judiciário tem o direito de tomar decisões que o artigo 1 da Constituição reserva aos representantes eleitos pelo povo, nossos comentaristas e observadores tentam passar uma justificativa nobre.
Dizem que a judicialização é um produto da omissão de nossos legisladores. A ideia é conhecida: já que nossos legisladores não cumprem suas obrigações, a Justiça acaba sendo obrigada a intervir, bondosamente, até contra vontade, em defesa do cidadão.
Procurando dar um aspecto épico ao comportamento do STF, o ministro Luiz Roberto Barroso disse recentemente que, em determinados casos, o tribunal “empurra a história.”
A menos que estejamos diante de uma concepção determinista da história não custa lembrar que a evolução da humanidade pode ser empurrada para um destino positivo, mas também pode ser conduzida para trevas e abismos. Em 1964, a história andou para trás, com uma mãozinha do STF, que se acomodou ao poder militar.
É curioso notar que se fala da omissão de nossos legisladores dias depois do país assistir a uma intervenção brutal da Justiça no debate sobre o aumento do IPTU em São Paulo.
Joaquim Barbosa, presidente do STF, manteve uma liminar do Tribunal de Justiça que suspende o aumento do IPTU.
Você pode dizer o que quiser desse IPTU. Pode xingar e pode elogiar. Pode achar que ele daria a Fernando Haddad os recursos de que ele necessita para encaminhar seu programa de gestão e que isso é ruim. Também pode achar que o novo IPTU vai revoltar a classe média e atrapalhar a votação da Dilma Rousseff em São Paulo.
Só não se pode afirmar que a Câmara de Vereadores foi omissa. A Câmara recebeu a proposta, debateu e aprovou. Se alguma coisa se fez, foi andar rápido nessa matéria.
Suspender o aumento foi um ataque frontal a uma decisão inteiramente legítima.
O conteúdo social dessa decisão é uma caricatura da desigualdade brasileira.
Seria uma piada pronta, não fosse uma tragédia.
Na média, cada proprietário de imóvel teria um acréscimo de 50 centavos por dia no IPTU. Sabe aquela moedinha prateada que tanta gente procura no bolso para dar para aquela criança que estica o braço para dentro da janela quando o sinal estava fechado? Era isso, e apenas isso, salvo para aquelas pessoas que olham o mundo pelo olhar míope do impostômetro – numa atitude que os mais antigos chamariam de egoísmo de quem perdeu até a alma.
Os moradores de bairros e residências pobres, equivalentes a 14% do total, ficariam isentos.
Considerando que o projeto nasceu na gestão de Fernando Haddad, eleito como 55% dos votos em 2012, não é difícil deduzir quem estava ao lado de quem neste debate.
Principal liderança política da campanha contra o aumento, o presidente da FIESP, Paulo Skaf, foi o mesmo que em 2007 teve um papel fundamental no levantamento de recursos que permitiram a extinção da CPMF pelo senado, desfalcando a saúde pública de 20 bilhões de reais. Havia até um elemento questionável nessa decisão, já que a Constituição afirma que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Cabe ao Estado, portanto, encontrar meios para cumprir suas obrigações, o que só se pode fazer através de impostos e subsídios.
Mas o Senado, dominado por uma oposição interessada em quebrar as pernas do governo Lula, conseguiu ajuda de Skaf para tirar dinheiro da saúde pública.
Foi desastroso do ponto de vista popular. Mas não foi “omisso,” correto? Pelo contrário: foi “explícito,” foi “ativo”, foi “claro.”
Em proveito de quem meus caros?
Ao assumir atribuições fora de sua competência, o Judiciário disputa poder junto a representantes eleitos, favorece soluções autoritárias, às costas do eleitor, que pode até aplaudir uma medida aqui, desgostar de outra mais adiante, apedrejar uma terceira – sem compreender que está sendo destituído da palavra final sobre o destino da nação.
Veja o que aconteceu com os royalties do petróleo. O Congresso resolveu, por ampla maioria, que eles deveriam ser divididos de uma forma mais equitativa entre os estados brasileiros. Essa medida não agradou a uma fatia dos eleitores dos Estados que iriam perder receitas e foi combatida duramente pela TV Globo.
Até hoje uma decisão soberana do Congresso brasileiro encontra-se parada no STF. Omissão de quem?
O mesmo Tribunal de Justiça que privou a prefeitura paulistana de um recurso extra de R$ 800 milhões definiu um programa de creches detalhado, prazos que devem ser cumpridos, metas e assim por diante. Alguém já se perguntou o que nossos juízes pretendem fazer com Fernando Haddad – autoridade eleita pelos paulistanos para zelar pelos interesses da cidade – caso o programa de creches do TJ-SP não for cumprido?
Em outro episódio, Haddad levou em frente um projeto de campanha e suspendeu o Controlar. O programa voltou, por decisão judicial.
Prefeito da maior cidade do país, Haddad deve explicações a Justiça ou aos eleitores?
Este é o ponto.
Como a maioria da população, tenho uma opinião bastante crítica sobre nossos legisladores. Muitos são menos preocupados com as necessidades do povo do que deveriam. Chegam a tomar atitudes que muitas pessoas encaram com um insulto e uma desmoralização. Nada disso justifica, no entanto, qualquer esforço para diminuir e enfraquecer seus poderes. Cabe debater regras eleitorais, procurar outros candidatos e assim por dinante. A menos, claro, que você não tenha percebido, ainda, que a democracia é o pior regime do mundo — com exceção de todos os outros.
E aqui chegamos a questão essencial.
Ao agir politicamente, a Justiça é obrigada, de uma forma ou de outra, a afastar-se de seu princípio essencial, da isenção, da balança, do equilíbrio, para tomar partido, escolher um lado.
Em editorial onde admite o problema, a Folha de S. Paulo chega a pedir “equilíbrio” ao Judiciário. Referindo-se ao programa de creches do Tribunal de Justiça, o jornal adverte:
“Se terminar usurpando competências do Executivo e ambicionar, em substituição ao governo, conduzir a política educacional, a decisão será desastrosa.
Em democracias consolidadas, tribunais se pautam pelo equilíbrio entre ativismo e autocontenção. Na jovem democracia brasileira, a busca por essa fórmula está em curso e dependerá, em boa medida, do sucesso (ou fracasso) de experiências como a do TJ-SP e da sobriedade dos ministros do Supremo Tribunal Federal.”
Vamos combinar que o simples fato de um jornal pedir “equilíbrio” ao Judiciário mostra que se chegou a um preocupante estado de desequilíbrio entre os poderes. É sintomático que o jornal tenha reconhecido isso.
A verdade é que não estamos diante num debate sobre a “melhor forma” de administrar a cidade, numa espécie de seminário entre cidadãos bem intencionados, onde é preciso encontrar o “ponto certo” num universo “complexo” e outros argumentos que parecem acadêmicos.
A discussão é política e envolve interesses concretos. Também envolve os fundamentos do poder de Estado. Colocado contra a parede em três decisões grades de sua gestão, Fernando Haddad enfrenta uma situação que está longe de ser única.
A judicialização ocorre em dezenas de cidades médias brasileiras, onde prefeitos são atingidos com frequências em seus mandatos e forçados a modificar ou suspender políticas que têm todo o direito de encaminhar como representantes eleitos pelo povo.

Fonte: O Cafezeinho.com