Os eleitores de Dilma e Aécio podem
comemorar, mas recomendo aos de Marina que fiquem bem preocupados. A
coisa começa a ficar feia para o lado dela
Às 19 horas e 25 minutos este vosso humilde servo antecipou pelo Twitter e pelo Facebook o que ocorreria na pesquisa Ibope sobre a sucessão presidencial que seria divulgada pelo Jornal Nacional uma hora depois.
Apesar da informação privilegiada, eu já intuía.
Seja como for, não vamos complicar muito a história repisando, aqui,
gráficos e números que estão aí em todos os grandes portais para todomundo ver.
O fato é um só: Dilma se mantém no segundo turno (40%), com queda
dentro da boa e velha margem de erro do “Globope” (2%). Marina e a sua
margem de erro – ou, como alguns preferem, de “acerto” – ficou estagnada
(43%)
No primeiro turno, Aécio e sua margem de erro crescem quatro pontos
(19%), Marina e a margem de erro dela perdem 1 ponto (30%) e Dilma e a
sua margem de erro caem 3 pontos (36%).
O que vale a esta altura, porém, é o que acontece com a principal
adversária de Dilma, ao menos no momento. Para ela, não está nada bom. A
vitimização e a capa da Veja não a ajudaram. Muito pelo contrário. E
não só parou, já está caindo.
Para Aécio, boa notícia. Ele e sua margem de erro cresceram até bem. E de verdade. Não está mais morto, mas está longe de estar saudável.
Para Dilma, melhor impossível. Há cerca de dez dias, estava até 10
pontos atrás de Marina; hoje, ela, Marina e a margem de erro de ambas
estão tecnicamente empatadas. Dilma está se solidificando.
Quanto à margem de erro, não vou nem dizer mais nada. Todos sabemos do que é feita.
Os eleitores de Dilma e Aécio podem comemorar, mas recomendo aos de
Marina que fiquem bem preocupados. A coisa começa a ficar feia para o
lado dela.
O casamento entre Marina Silva e Neca Setubal, herdeira do Itaú e coordenadora do programa de governo da candidata do PSB, já causa danos à imagem do banco; na internet
e nas redes sociais, a instituição financeira é alvo de uma série de
"memes", que questionam, inclusive, a multa de R$ 18,7 bilhões imposta
pela Receita Federal, por sonegação de impostos, ao banco da família
Setubal; na web, a candidata socialista já é chamada de "Marineca" e há
até uma campanha para que ela seja lançada candidata à presidência do
Itaú; com seu engajamento pró-Marina, banco assumiu o risco e, mesmo que
vença, pode vir a ter problemas; afinal, como reagiria a opinião
pública, num eventual governo Marina, a um perdão da Receita Federal ao
Itaú?
O pré-sal é um dos maiores patrimônios e uma das maiores conquistas do Brasil. Nada mais coerente do que continuar a explorá-lo
Não é à toa que Marina Silva já esteja sendo chamada de candidata
ioiô. Depois de defender a criminalização da homofobia e voltar atrás,
condenar a produção de transgênicos e voltar atrás, discursar contra o
agronegócio e voltar atrás, a candidata também recuou no que diz
respeito à exploração de petróleo na camada pré-sal. É importante que
todos saibam os riscos de colocar o pré-sal em segundo plano. Como
deputado federal, pude me debruçar largamente sobre o tema ainda em
2009, quando fui relator do caderno "Os desafios do pré-sal", publicado
pelo Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara com
coordenação do consultor legislativo Paulo César Ribeiro Lima. Em
seguida, apresentei ao Governo Federal a proposta de substituir o
sistema de concessão pelo sistema de partilha, o que garantiu ao Estado a
manutenção da propriedade do petróleo explorado e maior controle sobre o
ritmo de produção.
Essa experiência me permite afirmar que, se o pré-sal não for
priorizado, não haverá Plano Nacional de Educação, por exemplo. Essa
importante conquista minguará por inanição sem o devido aporte de
receitas proveniente dos royalties do petróleo. O baque não se resume a
isso. Com o pré-sal ignorado ou colocado em segundo plano, o Brasil será
duramente afetado em pelo menos sete eixos estratégicos. Vamos a eles:
1. Educação: Legislação específica definiu que 75% dos royalties do
pré-sal destinados à União devem ser usados exclusivamente na Educação.
Isso significa quase R$ 200 bilhões nos próximos 10 anos, sem os quais
será inviabilizada boa parte dos avanços previstos no Plano Nacional de
Educação.
2. Saúde: Os 25% dos royalties do pré-sal destinados por lei à Saúde
permitem recompor as perdas orçamentárias provocadas pelo fim da CPMF.
3. Indústria Naval: Os contratos já firmados de exploração do pré-sal
provocaram a ressurreição da indústria naval brasileira nos últimos
anos. Há mais de 10 estaleiros funcionando a todo vapor na produção de
embarcações utilizadas no transporte de pessoal e carga entre as
plataformas. Ficarão sem demanda.
4. Tecnologia. Com a mudança do regime de concessão para regime de
partilha, proposto por mim na Câmara, ficou estabelecido um mínimo de
60% de componentes nacionais na atividade de exploração do pré-sal, o
que ajuda a alavancar a transferência de tecnologia para o Brasil, além
de trazer mais empresas e mais empregos.
5. Municípios. Após o longo processo de negociações que culminou com a
redistribuição dos royalties do petróleo entre os diferentes Estados e
Municípios, e não mais somente para as localidades onde é feita a
extração, deixar o pré-sal em segundo plano significa tirar recursos
principalmente das prefeituras. Pode ser fatal para muitos municípios.
6. Fronteiras. Desmobilizar a estrutura policial e demais forças de
vigilância permanentemente instaladas nas porções da costa brasileira
onde há plataformas de petróleo significa fragilizar o controle sobre
nossas fronteiras molhadas.
7. Meio ambiente. Por mais que o Brasil invista em fontes
alternativas de energia, a principal matriz mundial continuará sendo o
petróleo, que terá de ser produzido em algum lugar. O pré-sal implica
menos impacto ambiental do que a exploração do petróleo pesado na
Venezuela, das areias oleosas no Canadá ou do gás de folhelho (ou xisto)
nos Estados Unidos.
Em resumo, o pré-sal é um dos maiores patrimônios e uma das maiores
conquistas do Brasil. Graças ao pré-sal, a produção de petróleo cresceu
14,8% em 12 meses e atingiu o recorde de 2,267 milhões de barris por dia
em julho. A expectativa é de que a produção chegue a 5 milhões de
barris diários em 2020, e que sua exploração traga mais de R$ 1 trilhão
para o país nas próximas três décadas.
Seu impacto será enorme, não apenas na indústria de combustíveis, mas
também na produção de plástico, tintas, pneus, medicamentos e muitos
outros produtos derivados do petróleo. Nada mais coerente do que
continuar a explorá-lo, sempre em paralelo com o aproveitamento cada vez
maior das fontes alternativas de energia, como a solar e a eólica, hoje
em plena expansão.
Ameaçados por um avião e um aeroporto,
Mariana e Aécio podem ter perdido o voo que conduziria um deles à
Presidência da República. Mais ironia do que isso, impossível
Não deixa de ser irônico que se possa usar uma metáfora “aérea”
para descrever o enrosco em que os dois principais candidatos de
oposição a presidente da República se meteram. Um enrosco que pode lhes
custar a derrota para Dilma Rousseff.
A ironia, por óbvio, reside em que o setor aeroportuário foi, durante
anos, um dos principais cavalos-de-batalha da oposição a Lula e a
Dilma. Devido à forte inclusão social nos governos petistas, a “nova
classe média” chegou a aeroportos pensados exclusivamente para a elite e
causou superlotação que a mídia apelidou de “caos aéreo”.
A Copa do Mundo de 2014 resolveu o problema. Hoje, o país tem
aeroportos capazes de atender a uma demanda vitaminada pela distribuição
de renda da era petista, ainda que a elite e a mídia se recusem a
reconhecer os méritos da nova malha aeroportuária.
Ironicamente, porém, Aécio Neves e Marina Silva podem ser derrotados,
respectivamente, por um aeroporto e um avião. Está ficando claro ao
país que o moralismo com que esses dois atacam os governos petistas dos
últimos 12 anos não passa da mais deslavada hipocrisia.
A candidatura de Aécio Neves foi praticamente inviabilizada por um
fato que ele achou que passaria batido: ter usado dinheiro público para
construir um aeroporto dentro de fazenda de sua família que ele
frequenta o tempo todo.
Aécio tentou fazer o país de trouxa ao negar o que só cego não
enxerga: o seu escandalosamente evidente interesse pessoal na execução
da obra milionária.
Mídia e aliados de Aécio disseram que as pesquisas não registraram
prejuízo eleitoral para ele por conta desse episódio, mas a rápida
desintegração de sua candidatura que pesquisas internas dos partidos
(inclusive do PSDB) vêm revelando, comprova esse prejuízo.
Aécio pode até não ter perdido votos – a crer nas pesquisas e,
sobretudo, em suas “margens de erro” –, mas parou de ganhar. Estancou.
Por conta disso, foi o principal prejudicado pela morte de Eduardo
Campos.
O fato é que, à exceção da direita mais radical, todos estão vendo o
pretenso novo “príncipe da República” se esboroar contra o solo.
Eis que surge Marina, herdeira política da “santificação” instantânea
que a morte concede no Brasil. Contudo, passados alguns dias a
justificada gritaria dos que perderam seus imóveis com a queda do avião
de Campos começa a fazer as pessoas acordarem.
Chega a ser estupefaciente que, passados mais de dez dias, não se
tenha chegado ao dono de um avião que o político morto usava de modo tão
intenso. O jogo de empurra vai deixando claros os interesses obscuros
que financiavam Campos e que continuarão financiando Marina.
As suspeitas de ilegalidade no uso da aeronave ainda não chegaram ao
eleitorado, mas já estão sob escrutínio da Polícia Federal e da Justiça
Eleitoral. A cada dia se entende cada vez menos a origem daquele avião e
que tipo de acordos o colocaram à disposição de Campos.
Mesmo que os adversários de Marina não tenham coragem de explorar o
escândalo que vai nascendo – e, no que diz respeito ao PSDB, seus
blogueiros e colunistas amestrados já exploram o caso –, a Justiça
Eleitoral dificilmente vai se contentar com explicações vagas.
De quem é o avião que Campos usava como seu? Quem pagou? Quanto foi pago? Foi declarado à Justiça Eleitoral?
Marina, segundo já admite a mídia, pode ter a candidatura impugnada por esse caso.
Mesmo que a Justiça Eleitoral não tenha coragem de chegar a tanto, as
obscuras contas de campanha do PSB já revelam que Marina não tem as
diferenças que apregoa em relação a outros políticos.
Tanto Marina quanto Aécio são daqueles políticos que quanto mais forem conhecidos, pior para eles.
No caso de Marina, até mesmo o tal “mercado” já começa a perceber que
um seu governo seria fraco por falta de base política sólida. Ela teria
que bater às portas do PSDB e do PMDB ou deste e do PT.
Estadão, Época e Reinaldo Azevedo saíram na frente na pancadaria
contra Marina. Ou seja, o PSDB saiu na frente contra Marina – até por
ela prejudicar mais os tucanos, ao menos no momento.
O PT parece menos preocupado com Marina do que com o bombardeio da mídia.
No terceiro programa de Dilma no horário eleitoral, o PT alternou a
estratégia de acusar a mídia com a estratégia que esta chama de “nós
contra eles”, ou seja, mostrar como o povão passou a desfrutar do que
antes era exclusividade da elite, como acesso a universidades, a casa
própria, a aeroportos.
Lula, no horário eleitoral, é uma bomba atômica. Deve ser um dos
políticos que menos perdeu com as manifestações de junho do ano passado,
apesar de Dilma ter sido quem mais perdeu. O chamamento à reflexão que o
ex-presidente tem feito dificilmente deixará de produzir efeitos
eleitorais.
A vantagem de Dilma é a de que ela não precisa melhorar muito as suas
intenções de voto. Se ganhar meia dúzia de pontos nas pesquisas pode
até liquidar a fatura no primeiro turno. Já Marina e Aécio precisam de
muito mais.
Ameaçados por um avião e um aeroporto, Mariana e Aécio podem ter
perdido o voo que conduziria um deles à Presidência da República. Mais
ironia do que isso, impossível.