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domingo, 26 de novembro de 2017

O SOLDADO “CANINANA” E A CUMBUCA DE OVOS. (por Jacob Fortes. 23.11.2017).


Numa localidade erma, encravada no vazio do semiárido brasileiro, existia uma vila conhecida originalmente por Água de Dentro. Seus habitantes, ornados por uma miséria tão coletiva quanto próspera, eram pessoas simples; viviam da terra e dela tiravam o seu sustento. Décadas depois Água de Dentro elevou-se à categoria de cidade, desta feita sob a denominação de Riacho da Aurora.  Aliás, (permita-me o breve registro), foi na capela do Riacho da Aurora que se verificou, segundo o folclorista “Leota”, a mais excêntrica manifestação de regozijo por parte de um caboclo. Ao ouvir o oficiante proclamar: “eu vos declaro marido e mulher”, o recém-casado querendo reiterar à esposa o irresistível enlevo de tê-la desposado, expressou assim seu contentamento: Zefinha, ou bom ou mau, a desgraça tá feita!
Agora que bordei esta página com essa inusitada declaração de amor, possivelmente a mais feia e mais desagradável, retomo o curso da história da cumbuca de ovos.

Pois bem, numa casinha rústica da região interiorana do Riacho da Aurora residia uma viúva, Dona Etelvina, e seu único filho, o Quincas, apelidado de Quinzin. Semanalmente, acompanhada de Quinzin, Dona Etelvina, depois de enfatiotar-se de trajes domingueiros, endereçava-se à feira do Riacho da Aurora para aprovisionar-se de mantimentos próprios da despensa cabocla. Para custear essas aquisições levava uma cumbuca contendo muitos ovos de cocar, geralmente uma gros

LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI

domingo, 28 de maio de 2017

POVO QUE NÃO SONHA SE LIQUIDA

Jacob Fortes
Não é apenas o provimento de bucho que sustenta um povo, mas também os sonhos. Tire os sonhos de um povo e o verá apagado, sem ânimo, abatido, fechado em si, emurchecido.
Não é de data moderna o sentimento de pesar dos brasileiros por se acharem impedidos de sonhar. O pesar surge sob a forma de doença. Essa doença, síndrome do confisco de sonhos, fora engendrada pelos corruptos. Os sonhos, pelo seu papel singular, são, por assim dizer, o estímulo, os estribos invisíveis do povo. Por mais que não se possa tocar nos sonhos eles são a entidade em que todos confiam para segredar propósitos, aspirações. São os sonhos que minimizam a crua realidade dos percalços; fazem o povo crer ser possível obrar feitos. Sem eles, no entanto, o povo chega a descrer de si mesmo. No dizer do poeta, “os sonhos são igualmente os brotos: vão rebentando e se abrindo em floradas”. Assim como a água da rega alegra as verduras, o povo carece dos borrifos de sonhos para não perder o viço, não emurchecer.
Há decênios os corruptos não fazem outra coisa senão privar os brasileiros dos seus sonhos. Essa prática abominável de confisco enseja alguns mínimos questionamentos: por que será que esses honoráveis patifes, de paletó e gravata, preferem que suas memórias à posteridade contenham o timbre da canalhice, das malfeitorias? Será que no íntimo das consciências dessa chusma de salteadores não há um pugilo de remorso pelas impiedades que cometem contra os brasileiros e o Brasil? Que escarmento merecem esses solenizados calhordas por se haverem na continuada prática de despojar esses bens tão preciosos, os sonhos? Será que as súplicas dos brasileiros contra a ação nociva dessa irmandade biltre têm sido insuficiente, de pouco fervor? Que oração, em nível de recurso, se pode evocar para fazê-los emendar-se; demovê-los do nefando vício de expropriar os sonhos do povo? Compulsando o catálogo dos rogos sugiro que comecemos pelo miserere, (salmo 51, da Bíblia), indicado para fazer aflorar a piedade alheia. Não surtindo o efeito desejado, e levando em conta não existir no Brasil o suplício capital, (e o fato de que as penas de reclusão lhes parecem água benta e os presídios escritórios para recalcitrar no crime) sobrerresta propor a criação de medida de espessura; aditar as leis penais, (hoje, brandas, românticas), de modo a que surjam normas de dentes afiados, mais imperativas, austeras, que cominem penas de maior acrimoniosidade.
Tivesse o Brasil severidade contra saqueadores, lesas-pátrias, não estaria claudicando nessa aridez, mas em radiante prosperidade, com seu terreiro limpo, desinfetado e, é claro, um gabinete dentário em cada esquina, além de metrôs de fazer a inveja sofrer.
Até quando essa malta lançará ao rosto do Brasil e de sua gente essa afronta? Até quando o povo gemerá debaixo de pedágio, escorchante, que sustenta o apetite de esponja dos ladravazes do Brasil? É perpétua a validade do alvará que permite a essa confraria de morcegos — uns anafados, outros de papadas pletóricas — vexar sadicamente o povo tal qual o gato faz o rato padecer?
Sentir-me-ei regiamente gratificado se tudo que deixei dito neste texto chegar às famílias dos corruptos, nomeadamente às suas mães; que não os tiveram para o crime.

Os sonhos nos põem para além das nossas dimensões”.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Jacob Fortes e a tragédia do Chapecoense

A TRAGÉDIA DA ROLETA-RUSSA. (Por Jacob Fortes. 05.12.2016).
Os atletas da chapecoense, Santa Catarina, foliando e cantarolando, voaram alto, em direção à Colômbia, em busca de uma taça, sul-americana. Comichava-lhes o propósito de mostrar ao estrangeiro os seus talentos, amplamente conhecidos entre as quatro linhas brasileiras; reluzir além-fronteira, arrebanhar troféu internacional. Porém, em vez de troféu, foram arrebatados por um acidente fatídico. O combustível que sustinha o avião da empresa Lamia exauriu-se minutos antes da aterrissagem. A aeronave desabou, se fez tragédia, que ainda ecoou pelo mundo, 71 mortos, além dos mutilados.

Vê-se pelos órgãos de comunicação que voar no limite da capacidade de combustível era procedimento habitual naquela aeronave. A prática, maldita, de voar com incerteza de autonomia, derivava de uma coragem, estúpida, tão insana quanto o ato de brincar de roleta-russa: (apontar o cano da arma para si ou para outrem, sem conhecer a posição exata da bala, dentro do tambor do revólver).  O Brasil, enlutado, recebe, pranteia e vela seus mortos, 71, cada qual no seu envoltório de madeira; aguarda o regresso dos que ficaram sob os cuidados sacerdotais de Medellín. E a comoção se expande, a brasilidade ainda chora!

Que não suceda ao Brasil tragédia semelhante, mas se o fadário se impuser que não lhe falte, nessas horas incertas, uma Medellín para acudir, para despachar socorros capitais. Em nome dos brasileiros e do sentimento de gratidão que lhes demarca, ergo ao povo de Medellín, Colômbia, o mais elevado preito de admiração e gratidão.


Apesar de a equipe haver-se sucumbido, a chapecoense há de restaurar-se, soerguer-se; não desertará do ideal de ser sempre uma vencedora. Porém, não custa reflexionar: voos módicos não são necessariamente os mais seguros; podem até denotar impertinência quando se trata de transportar valorosos guerreiros que, com bravura, puseram em alto-relevo as cores chapecoenses e do Brasil.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Qual sua opinião sobre as vaquejadas?

Mais uma opinião nos chega. Esta vem de Brasília, onde mora o nosso conterrâneo Jacob Fortes, escritor campo-maiorense que sempre nos brinda com seus pontos de vista.

SOFRIMENTO ANIMAL: O PRAZER DOS SÁDICOS. (Por Jacob Fortes. 07.11.2016).

Há pouco, o Supremo Tribunal Federal, acatando ação de inconstitucionalidade, derrogou os mandamentos da lei cearense, 15.299/2013, que regulamentava a vaquejada naquele estado. Agora, 01.11.2016, em contraposição, o Congresso Nacional aprovou projeto de lei que admite a vaquejada como legítima manifestação cultural do Brasil; o texto será submetido ao Presidente da República. Não se pode prognosticar o epílogo dessas decisões, antagônicas, subscritas por esses titãs: Judiciário de um lado, Legislativo de outro. O que de certo se pode almejar é que a iniciativa do Congresso tenda ao fracasso; as vaquejadas são exemplos frisantes de maus-tratos aos animais. A prática, revoltante, consiste em enclausurar o boi, instigá-lo e pô-lo em “liberdade” numa pista onde passa ser encalçado por dois vaqueiros montados em cavalos boiadeiros até que seja derrubado, de modo cabal, com as patas para cima. O procedimento, desapiedado, não raro acomete os animais de graves lesões: costela quebrada, perda da cauda, ruptura de ligamentos, etc. Em alguns estados, sobremodo Santa Catarina, a tirania recebe o nome festivo de a farra do boi: os farristas, bestiais, aficionados da prática, “soltam” o animal para que, em seguida, seja submetido a todo tipo de agressão até que, caído, não consiga mais se levantar.  É o horror sublinhando o instinto violento de uma comunidade sulista que, sentindo-se preexcelente, preeminente, ainda mais porque feita predominantemente de genética europeia, inscreve o seu nome, em alto-relevo, nos anais separatistas do estado.

Mas a prática que o Supremo Tribunal elidiu — que servia a propósitos sádicos e lucrativos — nem de longe se compara à ignominiosa barbárie de que é feito o glamour das touradas espanholas. Depois de exacerbado o furor do boi, “libertam-no” numa arena para que se dê início ao espetaculoso e sinistro flagelo do mártir: o touro. O toureiro, embrutecido pela ação do seu instinto sanguinolento, vai cravando espadas de ponta perfurante no dorso do animal cujas sangraduras fazem borbotar cachoeiras de sangue, circunstância que o torna gradualmente hipovolêmico. Não tarda para que, exangue, caia desfalecido. Tudo isso sob o delírio apoteótico de uma multidão “civilizada”, gente do primeiro mundo, de primeira classe. Enquanto as touricidas, (espetáculo facinoroso), sintetizam, em dimensões mundiais, o assombro e a perplexidade, a Espanha, insensível, se vê comodamente no procedimento rotineiro da arte e da cultura. É a malevolência, como sempre, subterfugindo as bestialidades humanas.

Até quando? Essa era a pergunta comumente feita durante o regime escravista; tomo-a por empréstimo e transfiro-a para as touradas. Mesmo que seja uma alucinação onírica, o mundo anseia que as touradas, travestidas de manifestação cultural, sejam abolidas do solo espanhol talqualmente a escravidão o fora no Brasil; é o apelo dos povos.  Para efeito dessa aspiração qualquer circunstância será bem-vinda, inclusive que os espanhóis se acometam de sentimento de nojo das suas próprias impiedades; se aterrorizem das suas ações macabras. Quando essa tradição, abominável, for excluída do patrimônio hereditário das gerações espanholas, a Espanha há de envergonhar-se da sua historiografia, de haver-se esbaldado na barbárie, de ter protagonizado medonho drama sanguinolento. Nessa ocasião as novas gerações, agora evoluídas para o nível da “incivilidade”, passarão a matar bois apenas para atender aos reclamos do bucho, não para fins recreativos ao estilo dos felinos: “{...} hoje brincas à vontade, como o gato sem piedade, faz o rato padecer {...}”. Atrás dos mal-afamados touricídios, — que melhor retratam as feições da Espanha, e que rendem aplausos nacionais, mas apupos no estrangeiro, — subjaz a hediondez de instintos sicários.

Ponha-se termo a esse tango, trágico, raiado de sangue, que tantas dores resumem; substitua-o por outros ritmos (mambo, polca, salsa, merengue, etc.), de maior alacridade, que melhor adocem os costumes. Esse cardápio, indigesto, — que remete às cavernas e requer substituição por algo mais frugal — não honra magnas figuras espanholas, que as faço representar aqui por Miguel de Cervantes Saavedra.

Dar-me-ei por satisfeito se este singelo arrazoado vier a expandir a consciência do leitor em desfavor da judiaria dos seres viventes.




domingo, 31 de julho de 2016

Jacob Fortes: Cuecas e calcinhas

CUECAS E CALCINHAS. (por Jacob Fortes. 31.07.2016).

Jacob Fortes

Durante a quadra menineira ouvia os mais velhos sussurrar segredos pelos quais o colchão tinha, também, a serventia de guardar dinheiro. Eram usanças de outros tempos: quando o mundo era mais áspero, mais adverso, porém menos rancoroso. Naqueles tempos de antanho tomate cereja era conhecido por tomate de tapera e frango “bombado” tinha o nome de galinha de capoeira. Posteriormente, já na adolescência, compreendi que os cofres e bancos eram os locais mais apropriados para salvaguardar dinheiro e escrituras. Porém, o mundo é pródigo em metamorfoses múltiplas. Não faz tanto tempo as páginas midiáticas transbordaram com uma inventividade bombástica: um membro do Partido dos Trabalhadores, num gesto vanguardista, arrojou-se na ideia de transportar dinheiro na cueca. O excêntrico procedimento, (que por certo aterrorizou o órgão genital) acabou por obter a simpatia de algumas mulheres. É o caso, exemplificativamente, de uma decoradora de Guarulhos que fora flagrada com 200 mil euros na calcinha quando tentava embarcar para a Itália.   Essas peças íntimas do vestuário — que na infância se chamavam cueiros, ou fraldas, mas hoje estão na plenitude da maioridade — têm a missão precípua de sitiar partes que, pela sua natureza, exigem os mais ternos desvelos. Transportar numerários de modo incógnito é prática das mais prudentes. Porém, utilizar cuecas e calcinhas como cofre ambulante é exagero de todo inconveniente, pois tais peças não possuem talento para papel tão diverso. Demais, a prática fere a compostura e insta a constrangimentos e vexações. E se, durante o transporte, os esconderijos inquinarem as cédulas ou lhes impregnarem de impertinentes exalações olfativas? Não cuidemos disso agora; fica para depois do desembarque da mercadoria. Inquinando ou não, a prática conspira contra a regra do decoro e, portanto, urge que se coíba essa agressão ao conforto e ao silêncio das partes pudicas. Essas partes, aliás, não são presenças que possam ser vistas aqui e acolá

Antes dessas invencionices, as peças íntimas tinham orgulho em afirmar acerca absoluta do que guardavam, mas agora, depois desses lançamentos exóticos, protagonizados por membros da fauna política, já não têm a mesma convicção. Certas invencionices, aliás, podem até ser legais, mas estranhas à moral, atentam contra o recato e a ortodoxia das intimidades..


domingo, 5 de junho de 2016

OPINIÃO: A CAMA DE FERRO DA INTOLERÂNCIA*

Ensinamento marcante pode ser extraído da mitologia grega, mais precisamente do lendário Procusto, bandido que, vivendo, oculto, na serra de Elêusis, à margem da estrada que ligava Mégara a Atenas, tinha em sua casa uma cama de ferro para a qual convidava os viajantes a se deitarem. Os hóspedes de altura superior ao comprimento da cama tinham, enquanto dormiam, as pernas amputadas a machadadas. Os de altura inferior eram esticados, com cordas e roldanas, até que se igualassem ao comprimento da cama.  O reinado de horror do tirânico Procusto chegou ao fim quando o herói ateniense Teseu o capturou e fê-lo deitar em sua própria cama onde teve a cabeça e pés decepados.  Teseu aplicou a Procusto o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes, incautos. A lógica doentia de Procusto era a padronização, isto é, todos deveriam caber na sua medida, na sua régua. Os que estivessem fora da medida única seriam enquadrados, subjugados. Embora Teseu tenha aniquilado o monstro da mitologia grega, seu espírito intolerante até hoje faz estragos pelo mundo afora, inclusive no Brasil. Aliás, a medida única de Procusto, representada por sua cama de ferro, metaforiza cabalmente o sentido da intolerância de uns em relação a outros. Mesmo sem a crueldade dos métodos de Procusto, frequentemente queremos enquadrar as pessoas na nossa régua de comportamento, nos padrões que julgamos ideias, ajustando-as aos conceitos de como deveriam ser. Vezes sem conta o espírito de Procusto se interpõe à história da humanidade. Exemplos de singular relevo são o holocausto e escravidão negra, onde os que se julgavam seres superiores acharam-se no direito de subjugar os que eram “diferentes”. Na inquisição usou-se até o nome de Deus para enquadrar os “diferentes”.  As cenas comuns de homofobia e ataques a homossexuais não são outra coisa senão reminiscências despertadas da cama de ferro de Procusto.  “Mas, não é a diversidade uma característica de homens e mulheres? Então,  por que insistir em obrigar homens e mulheres a viverem segundo os mesmos padrões e ideais, forçando-os a ajustar suas vidas aos conceitos pré-estabelecidos?”
Acautelemo-nos: o espírito, à solta, do crudelíssimo bandido mitológico ainda não encontrou a quietude do melhor sono; ressurge impondo a sua régua mutiladora, ora fisicamente, ora psicologicamente. Visível ou invisivelmente, a cama de Procusto pervaga por diversos ambientes inclusive nas escolas. “Alunos “diferentes” têm sido mutilados em suas características em nome do padrão social”. Muitos são os que tentam adequar os outros aos seus imperativos, forçando-os a entrarem nas suas medidas.
Que não sejamos acometidos da odiosidade que faz apertar o gatilho contra os que são “diferentes” ou pensam de modo diverso. A diferença entre pessoas é da essência do mosaico de povos. Que Deus abençoe a todos, sobremaneira os que, por serem “diferentes” são molestados pelos procustianos, simpatizantes da cama de ferro da intolerância, dentre os quais conhecidos apóstolos da intransigência: figuras da política, célebres redatores, etc.

* Jacob Fortes

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Jacob Fortes: Caminheiro Solitário

Esta semana Jacob Fortes nos premia com mais uma peça escrita que nos conclama à reflexão. 
Campo-maiorense irrequieto, Jacob tem uma das mais lúcidas visões do âmago do homem simples e questionador.

CAMINHEIRO SOLITÁRIO. (Por Jacob Fortes. 20.02.2016).
Ansioso por transpor um monótono chapadão das gerais, norte de Paracatu, desses retratados pelo contista Afonso Arinos, tomei o alvitre, num minuto indeciso, de parar o veículo à porta de uma desfigurada baiuca, à margem da estrada, para obter do vendeiro informações que pudessem abonar a minha bússola de navegação. O chapadão, conhecido pelo codinome de “Rasgo do Corisco”, parecia expandir-se cada vez que eu imprimia ritmo célere à viagem.
Sem desligar o motor, mal pude entender-me com o quitandeiro, alcunhado de “Gajão”. É que nossa conversa, de súbito, encheu-se de embaraços: um andarilho, esfrangalhado, cara enfarruscada, ali em parada de repouso, entendeu de golfar ao vento, sonoramente, asneiras e sandices. Sua impertinência, digna de impugnação, inspirava indulto. Não valia à pena contender com um homem cujo palavreado desconexo e ininteligível, testificava o escangalho do seu estado mental. Outra atenuante é que esses andejos, sem raízes nos pés, tudo que possuem, além da vida e do prazer de pisar o chão das estradas, é um matolão, às costas, locupleto de burundungas, além, é claro, do hábito de falar sozinho consigo mesmo durante as suas marchas; tão solitárias quanto pachorrentas.
Vai caminheiro! Vai cumprir, resignadamente, o teu destino fatídico, a tua desventurada vida de andarilho: deambular, continuamente, como a um penitente, pelos caminhos; nasceste para a liberdade! À margem das estradas (e da vida), Deus há de apiedar-se de ti.

E quando o meu carro, por motivo de viagem, for instado a polvilhar-te de poeira ou de fuligem te peço desculpas por essa circunstância. Nesse momento a tua figura (esquálida, desamparada, estropiada e envolta em trapos repulsivos) irá engrandecer as bênçãos com que tenho sido distinguido, particularidade que me impõem glorificar a Deus por tudo, tempo em que LHO perguntarei, humildado, se é verdade, ou delírio, tanto lixo social sobre a terra perante os olhos insensíveis da opulência, da ganância, do desperdício.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O FIEL DE JUNQUEIRO - Jacob Fortes


Em linguagem ornada de eruditismo robusto, portanto de difícil assimilação por quem se houve em leituras fortuitas, o escritor Guerra Junqueiro (1850 – 1923) narra, por meio do soneto intitulado “O FIEL”, a comovente história de um cão que vivia nas ruas e delas retirava o seu sustento. Aliás, as ruas, no dizer do escritor “João do Rio”, são “a mais niveladora das obras humanas”. É que as ruas tudo admitem: o bem e o mal, o evangelho e o crime. As ruas são igualitárias, socialistas, agasalhadoras, ignoram a erudição, transformam o significado dos termos, criam o chulo e o baixo calão, impõem aos dicionários as palavras que inventam. Mas voltemos ao cão, do Abílio Manuel Guerra Junqueiro; a dissertação das ruas fica para 2016.
Era um reles cão, sem coleira, acostumado ao vento e ao frio.  Para alimentar-se garimpava sobejos nas lixeiras e monturos. Durante as chuvas fortes ou frios rigorosos, abrigava-se nos portais, nos vestíbulos, mas ao menor ralho levantava-se e saía — envergonhado — pedindo desculpas, com os olhos, por haver ocupado um lugar que não lhe pertencia. Inofensivo, jamais mordera uma criança indefesa, sequer ladrara com quem quer que fosse mesmo com os molambentos de sujidade sem par. Porém, não faltava quem o fizesse correr à pedrada.
Certa feita um mísero pintor, boêmio, deparou-se com o solitário cão. Ao vê-lo, de olhar plácido e acolhedor, disse-lhe o pintor: — "O teu destino é quase igual ao meu, eu sou como tu és, um proletário roto, sem família, sem mãe, sem abrigo, e quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto, eu não irei achar o meu primeiro amigo? Tu és o meu amigo e eu sou o teu irmão; partamos, pois, juntos. O sofrimento a dois minora a dor”.
Depois de anos ombreados, dividindo, por igual, privações e dores, o pintor, por obra desses acasos agenciadores de bons e maus sucessos, fora contemplado com a glória, que o libertou da miséria.  Ambos, libertos de tantas vexações, passaram a desfrutar de vida lauta. O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo. Mas o pintor, inebriado de abastança, desandou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava as carícias, aborrecíveis. A indiferença do pintor imprimia ao cão um sentimento de desgosto, cujos olhos, lânguidos e doces, se tornavam melancólicos ao feitio da melancolia da imensidão oceânica. Velho, preterido e negligenciado, muitas vezes se via castigado, até batido pelos criados que lhe davam pontapés quando se punha a ganir chorando o seu destino. Por se haver nojento e pelos em queda, o dono impunha-lhe a detenção para que não o acompanhasse às ruas. 
Certo dia, pressentindo a morte disse a si: "Não morrerei sem antes despedir-me do meu amo; quiçá seja em seus pés o meu último gemido”. Ao meter-se no quarto do pintor, este bradou colérico contra o cão.
— Que fazes aqui, ó sórdido animal? Hei de pôr fim à tua impertinência!
Mas, simulando amizade, consertou.
Ó meu pobre fiel, tão velho e tão doente, acompanha-me, ainda que te custe.
E partiram os dois, no breu da noite, em direção ao cais, que ficava perto.   Aquele proceder, àquela hora, inspirou no cão um pressentimento nefasto. Enquanto o cão, pensativo, lançava o olhar sobre as trevas mudas recebia à face, com a imperturbável amargura do Nazareno, ósculos de Judas. E, resoluto, disse a si: “se este é o meu fadário pouco importa, foi ele que me abriu um dia a sua porta; morrerei se lhe dou com isso algum prazer.". Subitamente o pintor arremessou o cão nas águas profundas e geladas, mas junto, se foi o gorro de memoráveis recordações. De regresso a casa o pintor exclamava irado: “Por causa do cão perdi o meu estimado adereço, antes o tivesse envenenado; daria riquezas a quem pudesse reaver o meu gorro”.  Deitou-se, mas, inquieto, manteve-se insone durante o resto da noite pensando no gorro. E quando o clarão da manhã já era vívido ouviu bater à porta. Ergueu-se e foi abrir. Cheio de espanto recuou: era o fiel cão que voltara: arquejante, exânime, encharcado, a tremer, trazendo à boca o gorro do pintor. E tendo, com esse gesto, erguido para si o altar do sacrifício apenas tombou desfalecido! No plano terreal imolara as suas ilusões, mas restava o amparo da Celestial luz Santíssima.
Essa história de Junqueiro, real ou fabulosa, levará o leitor, inexoravelmente, a muitas ilações acerca da natureza dessas duas espécies que Deus engendrou e fixou sobre a terra: o homem e o cão.



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

UM CORAÇÃO REFORMADO. (Por Jacob Fortes. 10.09.2015).


Desde o berço os órgãos do corpo humano funcionam cheios de motivação. Seus ânimos fazem lembrar o aprazimento das crianças no playground. Porém, com o tempo decorrido começam a apresentar discrepâncias de desempenho; vão-se desmotivando, trabalhando entre regular e sofrível. Uns alegam cansaço, outros balbuciam resmungos inaudíveis sem precisar a natureza das suas queixas. Há também os irritados, cheios de discordâncias, vivem incitando os vizinhos à revolta como se quisessem incendiar coivaras. Enfim, cada qual com suas queixas, patologias e síndromes.
Ao meu coração, esse resignado “boi de carro” que labuta dentro do meu peito, sucedeu que, esfalfado ante a canga do tempo, ameaçava não ir adiante; é o que diziam os laudos médicos. Nesse estado de quem ameaça desabar, fez-se, não de vontade, o meu principal oponente. Isso me metia medo; ter um inimigo, mesmo arquejando, morando dentro de mim. Nem sempre o perigo vem da ação de quem pode, mas da inação de quem está privado de fazer. Em decorrência desse estado de quase apagamento, podia-se antever a suspensão do bombeamento do precioso líquido, de tom escarlate-solferino, que deixaria de dar de beber todo o canteiro. Desse modo, seco o leito dos regatos, dos canais, das regueiras, portanto, sem o Poço de Jacó” para proceder à rega, (perdoe-me o Evangelho de Jesus pela comparação irreverenciosa), pus-me a orar, pedindo a interveniência do alto.
Destarte, era inadiável submetê-lo a um tratamento que pudesse estimulá-lo a cumprir as suas competências, não sei se regimentais ou estatutárias, para as quais fora criado, mesmo que isso exigisse uma intervenção mais severa, inclusive porque, segundo os laudos, tropicava em avarias. E foi debaixo desse gélido sobrosso, dessa inquietação pavorosa, que tomei o alvitre de recorrer a um especialista, o cirurgião cardiovascular Ricardo Corso, que lhe aplicou um disciplinamento; impingiu-lhe uma reforma, vigorosa, que o deixou recauchutado: três safenas, uma mamária. O meu peito de “garrincha”, tão escasso quanto delicado, adquiriu feições de monstro catita. No bojo da reforma a esperança de não sair cedo do palco quem poderia (senão por merecimento, mas por misericórdia) permanecer até o último ato, enfim, não ver cortado o fio da existência antes do epílogo, antes de testemunhar a transcorrência das estações. 
E assim é a vida. Quando se pensa que ela segue o seu curso ordinário o extraordinário se antepõe. “Quando achamos que sabemos todas as respostas, o mundo modifica as perguntas”.   Ninguém sabe o que nos aguarda, Deus sabe. “Quando o discípulo, ou a obra, fica pronto, o mestre aparece”. Aliviado com o resultado formidável da obra de engenharia médica (aterradora), nada me resta senão agradecer; agradecer em tom de salmo: obrigado, primeiramente ao mestre celestial: meu Senhor e meu Deus; obrigado ao mestre terreal: Dr. Ricardo Corso, cirurgião, e sua equipe.  “Um médico, só por si, vale alguns homens”. Agradeço sobremodo ao meu “boi de carro”, pelo sacrifício de haver resistido a tantas vexações, mas revigorado permite a este velho carreiro, por um pedaço de tempo, carrear pela estrada da vida, (contornando as vaidades tolas), e entoando intimamente cânticos em louvor a Deus. Agradeço aos parentes e amigos por me haverem apalpado com palavras de conforto. A todos, por favor, relevem a incontida emotividade de quem esteve sob a ameaça de um exército de malfeitores: temor, incerteza, abatimento, melancolia, mas que se evadiram graças às palavras ternamente sinceras que os parentes e amigos fizeram jorrar sobre mim de modo tão carinhoso a moldes de chuvas de flores. Verdade que agosto, com os seus dias queimosos, tinha para oferecer apenas a nudez das árvores realçada pela nota triste do sabiá no galho, mas setembro, cheio de solidariedade enviou, a título de cortesia, os buquês primaveris; muitos, aliás, segregando néctares que me serviram de fármaco.
Eis que a aflição passou; ficaram as manchas de choro e os gemidos do tamanho dos destroços. Cresceu o meu débito, impagável, inscrito na dívida ativa do sobreceleste. Por já ter sido agraciado nada peço para mim, mas rogo a Deus que livre das enfermidades do corpo e da alma todas as criaturas: humanos e os animais.
Esta página vitoriosa de incentivo à vida, valentemente pelejada por um Corso — não da Córsega de Napoleão, mas do Rio Grande do Sul — a quem dei contornos literários, ergo ao insigne cirurgião cardiovascular, Ricardo Barros Corso, notável da Medicina, mãos enluvadas, tão servo do seu ofício quanto Miguel Couto o foi: “Retirai-me os atributos da Medicina e nada mais me resta. Desde que me entendi, a ela dediquei os meus pensamentos e depois todos os meus atos, e se neste empenho até hoje me consumo só nele me retempero. Para ela (a medicina) os meus anseios, as minhas aspirações e o meu trabalho. Teria remorso de distrair em outros cuidados o meu tempo {...}”.
Nessas horas infaustas, sofrimento, abatimento, é que ganha especial relevo uma Maria, uma Fernanda, uma Carmem, não importa o nome, enfim mulheres extremosas que, fortalecidas no sentimento de amor, velam o amado de modo compassivo sem ao menos perceber que sofrem. Feitas de brandura e firmeza elas, de modo luminoso, vão desbastando desalentos e infundido a fé. Quem as tem que as guarde não somente para as ocasiões de aperturas, mas para o companheirismo, que revigora, fortalece. Cá tenho a minha. Além de Maria também é do Socorro; em cujos atributos há uma particularidade: a de ler os meus pensamentos.
Desta cirurgia de grande porte convalesço, extenuado, limitado de voz e movimentos, porém esperançoso e agradecido. Benefícios são bem-vindos, inclusive os de sabor acre. Se alguém tem alguma dádiva propiciatória ao meu propósito de soerguimento, não precisa luxo: basta uma prece, uma intenção, uma palavra, uma canção, uma “Mercedita”.
A convivência do sofrimento ensina a humildade e lembra, na lição de cada dia, que o homem não é senão o sonho de uma sombra”.


sábado, 1 de agosto de 2015

RETALHOS DESBOTADOS, DAS RUAS. (Por Jacob Fortes. 17.07.2015).


Quem, por demoradas imersões, se der ao trabalho de mergulhar nas profundezas da mendicidade e examiná-la com toda minudência, concluirá que o ofício esmoleiro é protagonizado por duas confrarias: uma é real, outra inverídica ou, a bem dizer, uma verdadeira outra falsa. Dificílimo distinguir uma da outra, pois, numa indistinção, apresentam a mesma cara, o mesmo indumento, enfim todos os traços caracterizadores da face dolorosa e pungente da miséria humana, que confeita as ruas. O propósito de ambas é o mesmo: mendigar. A verdadeira, em decorrência das fatalidades ou destino insidioso, pede por justa precisão, pela imprestabilidade laboral: invalidez, cegueira, aleijão, hemiplegia, decrepitude arrimada em cajado, enfim, os que sucumbiram. A falsa, porém, pede por comodidade, por desfastio, por malandrice, por aversão ao trabalho, por desvergonha abominável; que não choca mais a ninguém. Os personagens da falsa mendicidade, — hábeis na extorsão pelo rogo, em nome de Deus — buscam na representação, na fantasia, no simulacro, os recursos para delinear um cenário de enfermidades, dores e aniquilamento, impossível de ser recusado por qualquer pessoa: crédula, incrédula, cauta, incauta. Se do sexo feminino, de pronto se dizem viúvas, desamparadas. Costumam, envoltas em chalés pretos, pedinchar durante a noite ocasião em que puxam, eventualmente, um ou dois petizes, tão sonolentos quanto andrajosos, mais das vezes alugados da vizinha; acumpliciada. Nesse cenário de engambelar e iludir, maior serventia terão os petizes de caras borradas ou confeitadas de bexigas. Pedinchar à noite atesta maior lugubridade; passa a todos, até aos sovinas, dolorosa impressão de confrangimento. Há dentre as farsantes as que têm vocação lamurienta, as chamadas carpideiras que, por terem facilidade de verter, eventualmente são até contratadas para prantear mortos durante os funerais; haja lenço, o pranto é verdadeiro.
Pedinchando na via púbica, nas calçadas, na sacristia, no vão das portas, a malandrice, dotada de grande vocação dramática, vai-se aprovisionando à custa das pessoas de boa-fé.  Mas os pedintes embusteiros sabem que a esmola é óbolo incerto, depende da generosidade e estado psicológicos das pessoas, das circunstâncias. Daí a necessidade do emprego de recursos de grande poder de convencimento e comoção dentre os quais os patéticos “atestados”, (apócrifos evidentemente), que dizem o tamanho e a natureza da desgraça que lhes vão por casa: o acometimento de graves enfermidades; a prole faminta e numerosa; o cadáver à espera de caixão, invencionices correlativas e acessórias conforme a ocasião e o espectador. Há casos, insólitos, em que até se rojam para esmolar, é recurso extremado para fazer emergir a caridade hesitante. Mas nisto fiquem atentos os avarentos, que tanto prezam o dinheiro, pois óbolos reles podem desgostar os malandros, circunstância que, via de regra, enseja praguejamento em chuva.
Se, no bairro em que exploram a caridade pública aparece algum neófito os decanos vitalícios martirizam-no como nas escolas aos estudantes calouros. Pontos de pedinchar de alta cotação, os mais rentáveis, são, por vezes, vendidos como se fossem cadeiras de engraxate.
Se a mendicidade verdadeira é instada a pedir, e o faz incomodamente, a malandrice esmola foliando, com enorme alacridade de espírito. Ela vê na mendicância não somente um meio de vida, mas uma pândega, uma faina das menos fatigantes, sem responsabilidade.

E enquanto não se pode distinguir o inverídico do real segue, à sombra da miséria verdadeira, o cortejo das práticas enganosas. A confraria sanguessuguense vai, à folia, amealhando provisões junto à toleima incauta dos que dão esmola. Enquanto existir mosaicos de povos e de consciências há de haver condutas picarescas: não há meios capazes (ainda mais quando se tem a descura do poder público) de dissuadir essa confraria da viciosa profissão: nem oferta de um bom trabalho, nem umas cócegas no dorso com corda de sedenho, nem um longo tour por essas enxovias bolorentas, mesmo porque muitos desses hipócritas são velhos frequentadores dos calabouços.

domingo, 5 de abril de 2015

COGITAÇÕES. Jacob Fortes

Escritor Jacob Fortes
              Há momentos em que a mente abandona o seu posto de vigilância e, entre prostração e calundu, mergulha em profundos e silenciosos devaneios.  É uma circunstância inesperada. Numa introversão indefinida se põe a ruminar sobre quase tudo: o ontem, o hoje, o amanhã, enfim, um cortejo de vultos pardacentos dentre os quais figuram as vitórias, que tonificam; as derrotas, que deixam o travo; a desopressão pelos benefícios recebidos e concedidos; a compunção pelos atos malévolos (quem nunca os cometeu, ainda que involuntariamente, que se professe imaculado), mais das vezes acesos, martelando, fazendo o seu autor purgar em arrependimentos. É o seu jeito paciencioso de vingar-se.
           Enquanto perdura o alheamento letárgico, a mente se detém nas suas escavações particulares fazendo desfilar o cortejo das legendas nevoentas: saudades, de pessoas e coisas; lembranças: esquivas, desgastadas, memoráveis; a carta fechada do porvir; o jardim da mocidade — que se dizia eterno, imarcescível, — progressivamente emurchecido ante o escoamento incontornável dos anos. E o filme segue exibindo legendas múltiplas que se alternam entre a melancolia, a taciturnidade, a alacridade.
            Mas, assim como desperta o corpo que se estira em sesta dormitiva, os devaneios também acordam. A mente, como que alfinetada, estremunha-se de súbito e dá-se por encerrada a introspectividade.
                Reativado o radar da mente o nauta, que se houve retido por falta de bússola, dar prossegui-mento à faina de navegar. Restabelece-se, então, a rotina; o discernimento reassume o leme.  

                   Este enunciado, ainda que exprima apenas o imaginário do narrador, é factível; pode acometer a qualquer um. É o que sucede aos que apascentam o olhar na pradaria do vago ou nas baforadas de um cigarro.

sexta-feira, 13 de março de 2015

CORRUPÇÃO: NÓDOA QUE PERSISTE. (Por Jacob Fortes, 12.03.2015).


A corrupção vem de longe, chegou debaixo dos panos como passageira clandestina das caravelas.

Por mais que existissem controles enérgicos, monitorados por exatores régios de grande valimento, (governadores, ouvidores e provedores) imbuídos de poderes majestáticos, de prerrogativas supremas para vigiar as riquezas da Fazenda Real, cobrar o quinto, julgar e decidir, o fisco régio era driblado; insondáveis modos corruptivos vigiam: imagens devocionais recheadas de ouro.

Enquanto escoava o rito com que El-rei drenava as riquezas da colônia, oprimida, infetada de corruptos, os rebentos tupiniquins iam surgindo aos milhares, e, nestes, o ardor da liberdade. Suas aspirações libertárias fustigavam-lhes o sangue! Enquanto a emancipação amadurecia, aqui e acolá levantes separatistas glorificavam heróis da independência; pena de morte ou degredo. Finalmente, sem bacamarte, sem baioneta, sem clavinote, sem derramamento, a independência, — por meio apenas de um grito sonoro vindo de especialíssimas circunstâncias históricas —, se fez realidade. Vexados por séculos de exploração os tupiniquins cantaram, se refestelaram.   Porém, remanesceram as bactérias virulentas da corrupção, principalmente na política e na gestão da coisa pública. O que era tomado dos brasileiros à força, pelos mecanismos reinóis, passou a ser tomado à surdina, à matreirice, pelos corruptos e corruptores. Desgraçadamente o povo continua sendo defraudado por uma corrupção sombria e trágica, quase hegemônica. Nisto deriva o sobrepeso escanchado no cangote dos que, com seu trabalho, forjam a identidade brasileira; embora por vezes rotulados de tolos porque se pautam pela correção.

Enquanto a corrupção, viciosa, endêmica, se devota ao santo sacrifício de drenar os recursos públicos, a pátria, — cambaleante, emperrada, de semblante demudado, — desapressa os passos da prosperidade.

Tomara que as mãos equânimes do Supremo Tribunal Federal, ao rigorismo da lei, possam desvendar e punir os corruptos que, por meio de tramoias, vivem parasitariamente à custa do suor dos tributários brasileiros. O país — saqueado, esvaído, — já não tem sangue suficiente para saciar a gula de esponja de tantos fraudadores hematófagos. Ainda que os embusteiros — no papel de diversivos e entregues ao hábito de pretextar para não assumir responsabilidades —, aleguem que a culpa é de Getúlio Vargas por ter criado a Petrobrás, a crença é de que o primado da justiça se imporá. Com ou sem lava jato, urge água e sabão, abundantemente, para remover essa nódoa que persiste. 

terça-feira, 3 de março de 2015

APOLOGIA AO LIVRO. (Jacob Fortes) jacobfortesdecarvalho@gmail.com


Certa feita, quando menino, fui com o meu pai à cidade; cada qual no seu jumentinho. Chegamos cedo; a cidade despertava numa pachorra de lesma, mas o Mercado Central era madrugador. Enquanto meu pai comprava o essencial nas quitandas do Mercado eu o aguardava debaixo de uma figueira folhuda, ao lado dos jumentos de doma. Próximo a essa árvore existia um quiosque no qual funcionava um biclicletário. O propósito do bicicletário consistia em alugar bicicletas; era o meio de vida do proprietário, Senhor Xudu.
Naqueles áureos anos em que esse transporte foi lançado, possuir uma bicicleta era privilégio de poucos; endinheirados. A única forma de a grande maioria, de pobres, andar de bicicleta seria por meio da alugação.
Debaixo da árvore eu reparava o movimento. Assim que o bicicletário abriu as suas portas começaram a chegar os alugatários; em pouco tempo a frota de bicicletas já havia arribado. Lembrei-me das abelhas do meu sertão, em revoada matinal para encontrar o néctar das flores silvestres. Os clientes, depois que grudavam as mãos no chifre do biciclo, saíam com ar de felicidade. Não era pra menos. Pedalar, oferecendo a face para os beijos da brisa é sempre prazeroso, mesmo quando o percurso impõe farta sudação. Vim conhecer essa sensação agradável próximo à idade adulta quando, morando na cidade, pude ter os meus ganhos parcos, porém suficientes para alugar uma bicicleta.
Daí a pouco, chega mais um freguês:
— Senhor Tadeu Xudu, eu quero alugar uma bicicleta.
— As bicicletas foram todas alugadas. — Aguarde, se puder; em breve uma delas estará de volta.
Pois bem, os livros deveriam ser tão andejos e ter a mesma mobilidade das bicicletas de aluguel, ou das abelhas: continuamente saindo e retornando às bibliotecas. Em vez disso, os livros dormitam nos vãos das estantes, por vezes amontoados, ostentando as marcas visíveis do desuso, inclusive grossas camadas de poeira; em completo desserviço. Pior que essa constatação (quando visitei algumas), foi ouvir diretores se gabarem das suas bibliotecas estarem entupidas de livros; todo o acervo aquartelado, circunstância que reforça as estatísticas: o Brasil continental ainda lê pouco se comparado a pequenos países da Europa. Bibliotecas públicas não deveriam expressar a caixa mortuária dos livros, mas apenas os seus locais de baldeação: marcados por um movimento de vai e vem, aos moldes das bicicletas ou das abelhas.
Se os livros dormitam, maquilados de pó nos seus ataúdes, é porque o povo não lê quanto devia. O povo pode até se encontrar de bucho saciado, mas a mente, insaciável, espera, merece e precisa de continuada leitura. A leitura — maneira barata, e até chique, de entretenimento — ensina a escrever, afugenta a ignorância, prepara, qualifica, fornece experiência, amansa a incivilidade e a grosseria, aperfeiçoa a dimensão interpessoal, possibilita conhecer o mundo, a arte, a tecnologia, amplia a capacidade de percepção, permite avaliar o melhor caminho que a vida oferece, facilita a compreensão dos direitos de si e dos outros. A incorrigível insensatez humana, via de regra resistente a catequizações, por vezes se amolga ante os efeitos benéficos do desapaixonado e fiel companheiro livro, responsável, mais das vezes, por maravilhar as pessoas. Ele (“mudo que fala, surdo que responde, cego que guia, morto que vive”) tem o condão de ameigar os corações humanos. Divorciadas da leitura, as pessoas tornam-se vulneráveis aos caminhos insidiosos; às desditas.
É pesaroso constatar que os livros, mesmo os de boa semente, vão sendo rejeitados a cada dia, vencidos por inutilidades que bem se prestam a fomentar a alienação das pessoas tecnológicas.  Tem-se a impressão de que a glória dos livros parece esvair-se em ânsias de morte. Houve época em que os livros eram companheiros de vigília; não se separavam dos seus amos nem mesmo no interior de coletivos ou em logradouros. Depois passaram a dormitar nos vãos das estantes e, agora, já são encontrados pelos catadores de lixo que os olham com o pensamento voltado para a balança. Esse desuso faz supor que num futuro não muito distante correrá o risco de ser detido, e encaminhado a um manicômio, aquele que, em via pública ou no interior de um coletivo, for flagrado lendo um livro.
Porém, o desábito à leitura não é culpa dos diretores das bibliotecas, mas do modelo; do poder público que não estabelece políticas de motivação à leitura. Mas isso não é insolúvel. Se houver interesse, se as escamas dos olhos forem retiradas, basta colocar o tema em discussão para as ideias acudirem.  Exemplificativamente: que tal se ao alunado brasileiro, em todos os níveis, fosse concedido pontos, como parte da avaliação continuada, pela leitura de livros? Evidentemente a leitura seria aferida por meio de uma banca sabatineira. Que tal, ainda, se os pais vinculassem as mesadas dos filhos à leitura de livros? Que tal, também, se os pais infundissem nos filhos o hábito da leitura, principalmente naqueles que se permitem encabrestar pela internet e programas de televisão, por vezes repletos de vacuidade? Essas leituras, é claro, seriam também sabatinadas. Que tal, igualmente, se um livro retirado de uma biblioteca no estado de São Paulo pudesse ser devolvido por intermédio de uma biblioteca da cidade de Campo Maior-PI, Sobral-CE, Goiânia-GO e vice-versa?
A ideia é fazer o livro se deslocar em múltiplas direções, disseminando o saber em todos os ramos do conhecimento, procedimento similar ao das abelhas que, ao alçarem voo em busca do néctar, prestam valioso serviço à natureza e ao homem. Durante o seu trajeto, as abelhas vão espalhando, naturalmente, por sobre os ovários das flores, os grãos de pólen que carregam nas suas corbículas, realizando, desse modo, a polinização responsável pela fecundação de frutos e, consequentemente, das árvores.
A leitura — que floresceu após a escravidão rombuda — não pode morrer, ao contrário, precisa revigorar-se. Este momento, científico tecnológico e democrático, estaria conspirando contra a leitura?
Também, é preciso desmistificar; leitura não pode ser entendida como artigo de primeira classe, mas artigo de brasileiros: ricos ou pobres. Por que seria espantoso flagrar-se um boia-fria, ou uma lavadeira, fazendo palavras cruzadas ou lendo um Machado de Assis? O Brasil precisa socializar a leitura; não pode continuar lendo nanico, mas do tamanho do seu tamanho.  
Com um esforço bem direcionado do poder público, da estrutura educacional e da sociedade, é possível socializar a leitura e imprimir aos livros um papel parecente ao das bicicletas de aluguel ou das abelhas. 

Quando alguém busca um livro para ser seu companheiro de quem é a glória? Do livro que ressuscita do seu claustro ou de quem o fê-lo ressuscitar?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Opinião: INDONÉSIA E A PENA DE MORTE

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira, em entrevista ao repórter Renan Antunes, em 2005, admitiu ser traficante: — “Sou traficante e traficante, só traficante”.
À parte esse desvirtuoso e daninho ofício, pungiu o coração dos brasileiros, sobremodo o meu, a notícia da morte de Marco, na Indonésia, por fuzilamento. Se a pena cominada, irrecorrível, é desproporcional à falta isso é inelutável.
A gênese das firmes convicções do Marco, — de que conseguiria reverter a sua sentença de morte — pode encontrar-se no Brasil: a impunidade que não mete medo, que encoraja recidivar. No Brasil as malinações se sucedem e não acarretam arranhões ao pescoço, nem mesmo aos que detém históricos recheados de assentamentos desregrados, mas em terras que não poupam acrimônia às práticas delitivas esse pescoço pode ser aniquilado. São os riscos que correm os que, em territórios onde a tirania faz rosários de cabeças humanas, cometem infrações manifestamente puníveis; depois de submetidos à responsabilidade penal.  Safar-se cá não quer dizer safar-se lá.
Nem sempre se salva aquele que acredita salvar-se no farol que segue. A luz, por vezes difusa, pode esconder abismos escuros. É o alvitre de cada um. Em busca de moeda cada qual toma o caminho que lhe parece conveniente: uns lançam-se tenazmente ao picadeiro, outros cavoucam em chãos duros e há os que acreditam encontrá-las facilmente, sem transudar, em meio a infrações fascinantes.
Talvez houvesse no Marco alguma distinção pessoal que pudesse ser admirada, mas o seu ofício, que reputo nefasto, é digno da mais religiosa compaixão.
Para expandir o sentimento de tristeza, há outro brasileiro na fila, Rodrigo Gulart, condenado por igual delito e que, enfermo, padece de profunda desorganização psíquica. Traficar em terra de degola esses brasileiros, Marco e Rodrigo, de duas uma: ou tornaram-se traficante porque ficaram loucos ou ficaram loucos por tornarem-se traficantes.  Que o amorável Deus vele o sono eterno do primeiro; apiede-se do segundo, pois, quem sabe, este poderá optar por dar melhor emprego a sua existência. 

(Por Jacob Fortes, 22.01.2015).