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BASTIDORES DA POLÍTICA DE CAMPO MAIOR: WELLINGTON SENA PODE PERDER A PRESIDÊNCIA DA CÂMARA?

Fotos crédito: Redes Sociais A política de Campo Maior começa a esquentar — e as conversas de bastidores já apontam para uma possível mudanç...

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Conto: Maria Preta

                                          Maria-Preta


                                      

    Jorge Câmara Lemos

Membro ALTEC

(Academia de Letras do Território dos Carnaubais)


As pequenas cidades têm características impressionantes. Muitas pessoas fazem parte do nosso cotidiano sem que sequer as conheçamos, apesar de estarem em nossas vidas. Estão ali, presentes, sem que sua presença seja importante — até que algo surpreendente venha a chamar nossa atenção. Não, não é redundância: presentes sem estar presentes…

Assim aconteceu com Maria. Maria Preta, como todos a conheciam na cidade.

Todos os dias, as pessoas viam Maria passar, para lá e para cá, pedindo um pouco de farinha, uma mão de arroz, uma ossada ou, quem sabe, até um dinheirinho vindo das almas mais caridosas.

E assim o tempo foi passando, e as pessoas continuavam chamando-a de Maria, como é de costume chamar aqueles cujo nome verdadeiro desconhecemos. Dado sua cor, precisava de um sobrenome. Maria Preta, pronto! Sua cor deu-lhe nome de família. Alguns até o diziam com chacota. Se fosse hoje, chamariam de bullying.

Não se sabia se era Maria de João Vieira ou Maria de qualquer outro sobrenome, pois nunca ninguém se importou em perguntar isso a ela. E Maria, sempre que chamada, passava a vida olhando com olhos de sofrimento e dor, carregando a amargura de ser uma alma sem rumo.

Era um verdadeiro mistério aquela mulher que estendia as mãos no comércio e olhava as pessoas com tanta dor que ninguém tinha coragem de encará-la nos olhos. Aquela negra, sofrida, quem sabe até oriunda de alguma senzala, mal falava. Ao receber alguma esmola, olhava desconfiada e só dizia: amém!

Início do século XX. Quem sabe se Maria não era realmente de alguma senzala? Ninguém sabia. Ninguém conhecia sua origem. Nunca se ouvira falar de seus parentes.

Sequer sabiam onde Maria morava.

Toda cidade que se preze tem na sua entrada um rio cortado por uma ponte. As pessoas raramente a viam descendo a ribanceira, no penedio, entre o rio e a ponte. Ninguém a via pegando a beira do rio.

Em uma manhã quente e ensolarada, de águas ainda abundantes do rigoroso inverno, algumas mulheres lavavam roupa — ou batiam roupa, como se costuma dizer no interior. No meio da algazarra das lavadeiras, de repente, uma delas soltou aquele grito que vem da alma, feito de medo e espanto: dois pés boiavam nas águas do rio Surubim.

Chamaram o destacamento da cidade. Um sargento, um cabo e dois soldados chegaram com toda a autoridade e foram ver o que estava acontecendo.

Sem querer molhar a farda, o sargento, homem alto e cheio de autoridade, pediu a um dos pescadores que jogasse uma tarrafa sobre aquele corpo que boiava. E qual não foi o espanto quando perceberam que era Maria. Maria Preta, a mesma Maria que todos viam na feira todos os dias, esmolando, tentando sobreviver.

Mas, de repente, surgiu mais um corpo. E outro. Três corpos nas águas do rio Surubim. O espanto foi geral. Alguém percebeu que os dois homens cujos corpos apareceram eram muito parecidos com Maria Preta.

Um dos curiosos acreditou que Maria morava por ali perto. Afinal, a pedra onde as mulheres batiam roupa ficava muito próxima do lugar onde Maria sempre descia ao rio.

Os curiosos logo se exaltaram, e foi aquela algazarra. Homens, mulheres, crianças, o próprio destacamento da polícia — todos se reuniram em uma verdadeira multidão exaltada na tentativa de encontrar a casa de Maria Preta.

O fim do mistério estava ali. A poucos metros do local onde as lavadeiras ganhavam seu sustento, apareceu o barraco daquela mulher que ninguém sabia de onde era. Uma panela no fogo, três redes amarradas, um quarto que talvez tivesse dois metros por dois metros. Uma casinha de palha, solitária, escondida.

E até hoje ninguém sabe de onde veio Maria Preta. Até hoje ninguém sabe de onde eram Maria Preta, seus filhos e o pai de seus filhos.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Você é a favor de se comparar Wesley Safadão com Willian Shakespeare?

Wesley Safadão (esq) cantor popular x Willian Shakespeare dramaturgo 

    
Recentemente, um episódio do programa "Caldeirão" da Rede Globo gerou polêmica ao comparar William Shakespeare, o maior dramaturgo de todos os tempos, a Wesley Safadão, cantor popular de música sertaneja. Embora ambos sejam figuras proeminentes em seus respectivos contextos culturais, a comparação é uma afronta ao valor literário inestimável da obra de Shakespeare, que transcende gerações e define o pensamento humano por sua profundidade filosófica e estética.
    Shakespeare não apenas moldou a língua inglesa com expressões que perduram até hoje, como também revolucionou o teatro e a literatura ao explorar as complexidades da natureza humana. Obras como Hamlet, Macbeth e Romeu e Julieta mergulham em temas universais — poder, amor, ambição, moralidade —, oferecendo camadas de interpretação que se adaptam a diferentes tempos e culturas. Wesley Safadão, por mais talentoso que seja como artista musical, produz uma arte de entretenimento que, embora válida, não possui a profundidade histórica ou filosófica necessária para sustentar qualquer comparação significativa.
    Ao fazer tal paralelo, o programa peca por reforçar a tendência de simplificação da alta cultura em prol de uma abordagem popular, mas superficial. Em vez de aproximar o público das grandes obras da humanidade, tais escolhas corroem a percepção do que é literatura e arte no sentido mais amplo. A televisão, como veículo de comunicação de massa, tem o poder de popularizar grandes autores e estimular o interesse por suas obras, mas, nesse caso, optou por uma abordagem rasa que deseduca ao invés de educar.
    Portanto, é urgente que programas de entretenimento considerem a responsabilidade que têm ao tratar de figuras culturais com a grandeza de Shakespeare. Ele é um marco literário que deveria ser apresentado como fonte de inspiração e reflexão, não reduzido a comparações que empobrecem sua contribuição histórica e artística.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Dia Nacional do Leitor: Um Convite à Reflexão Sobre a Leitura no Brasil

Hoje, 7 de janeiro, celebra-se o Dia Nacional do Leitor, uma data que vai além de homenagear os amantes dos livros. É também um convite para refletir sobre os hábitos de leitura no Brasil e o quanto ainda precisamos avançar para nos tornarmos uma nação que valoriza o conhecimento, a cultura e o prazer da leitura.

O Brasil e os Indicadores de Leitura

De acordo com a mais recente pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, apenas 52% dos brasileiros podem ser considerados leitores, ou seja, pessoas que leram ao menos um livro nos últimos três meses. Esse dado representa uma leve queda em relação à pesquisa anterior, evidenciando o desafio de promover a leitura no país.

Além disso, o brasileiro lê, em média, 2,6 livros inteiros por ano. Quando comparado a outros países, como França (7 livros anuais por pessoa) e Estados Unidos (12 livros), o número é alarmante e reforça a necessidade de políticas públicas, projetos educacionais e iniciativas privadas voltadas para a promoção do hábito de ler.

Por que precisamos ler mais?

A leitura vai além do entretenimento; ela é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento crítico, social e emocional. Estudos mostram que pessoas que leem regularmente têm mais facilidade para interpretar textos, argumentar com clareza e desenvolver empatia.

No Brasil, 29% da população afirma não ter o hábito de ler por falta de interesse. Isso reflete uma preocupação ainda maior: a leitura precisa ser estimulada desde a infância, e a escola, família e comunidade têm papéis fundamentais nesse processo.

Iniciativas que inspiram

Apesar dos desafios, há boas práticas que merecem destaque. Clubes de leitura, bibliotecas comunitárias e projetos como o "Leia para uma Criança", do Itaú Social, têm conquistado novos leitores e levado o prazer da leitura para diferentes públicos. Além disso, eventos como feiras literárias e debates sobre livros nas redes sociais ajudam a fomentar o hábito, especialmente entre os jovens.

O que podemos fazer?

Se queremos um Brasil mais leitor, precisamos começar agora. Incentivar crianças e adolescentes a explorar o universo dos livros, criar mais espaços de leitura acessíveis e valorizar os autores nacionais são passos essenciais. Além disso, aproveitar o Dia Nacional do Leitor para refletir sobre nossa relação com a leitura pode ser o ponto de partida para mudanças significativas.

Hoje, a mensagem é clara: a leitura transforma vidas e abre portas para um futuro mais inclusivo e crítico. Que este dia seja um lembrete de que nunca é tarde para começar a ler mais e inspirar outros a fazerem o mesmo.

domingo, 22 de setembro de 2019

O triste fim de Jair Messias Bolsonaro

Esse nosso espaço é dedicado às múltiplas leituras. Os gêneros, os mais diversos, procuram levar entretenimento e reflexão.

O texto abaixo, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, publicado em uma conceituada revista portuguesa, dá-nos o tamanho da imagem maculada do Brasil nos últimos nove meses. Apenas nove meses,e o caos se instala na Nação Verde-Amarela.

Vale a pena conferir e fazer uma reflexão.

Jair acordou a meio da noite. Mandara colocar uma cama dentro do closet e era ali que dormia. Durante o dia tirava a cama, instalava uma secretária e recebia os filhos, os ministros e os assessores militares mais próximos.

Alguns estranhavam. Entravam tensos e desconfiados no armário, esforçando-se para que os seus gestos não traíssem nenhum nervosismo. Interrogado a respeito pela Folha de São Paulo, o deputado Major Olimpio, que chegou a ser muito próximo de Jair, tentou brincar: “Não estou sabendo, mas não vou entrar em armário nenhum. Isso não é hétero.” Michelle, que também se recusava a entrar no armário, fosse de dia ou de noite, optou por dormir num outro quarto do Palácio da Alvorada.

Aliás, o edifício já não se chamava mais Palácio da Alvorada. Jair oficializara a mudança de nome: “Alvorada é coisa de comunista!” — Esbravejara: “Certamente foi ideia desse Niemeyer, um esquerdopata sem vergonha.”

O edifício passara então a chamar-se Palácio do Crepúsculo. O Presidente tinha certa dificuldade em pronunciar a palavra, umas vezes saía-lhe grupúsculo, outras prepúcio, mas achava-a sólida, máscula, marcial. Ninguém se opôs.

Naquela noite, pois, Jair Messias Bolsonaro despertou dentro de um closet, no Palácio do Crepúsculo, com uma gargalhada escura rompendo das sombras. Sentou-se na cama e com as mãos trêmulas procurou a glock 19, que sempre deixava sob o travesseiro.

— Largue a pistola, não vale a pena!

A voz era rouca, trocista, com um leve sotaque baiano. Jair segurou a glock com ambas as mãos, apontando-a para o intenso abismo à sua frente:

— Quem está aí?

Viu então surgir um imenso veado albino, com uma armação incandescente e uns largos olhos vermelhos, que se fixaram nos dele como uma condenação. Jair fechou os olhos. Malditos pesadelos.

Vinha tendo pesadelos há meses, embora fosse a primeira vez que lhe aparecia um veado com os cornos em brasa. Voltou a abrir os olhos. O veado desaparecera. Agora estava um índio velho à sua frente, com os mesmos olhos vermelhos e acusadores:

— Porra! Quem é você?

— Tenho muitos nomes. — Disse o velho. — Mas pode me chamar Anhangá.

— Você não é real!

— Não?

— Não! É a porra de um sonho! Um sonho mau!

O índio sorriu. Era um sorriso bonito, porém nada tranquilizador. Havia tristeza nele. Mas também ira. Uma luz escura escapava-lhe pelas comissuras dos lábios:

— Em todo o caso, sou seu sonho mau. Vim para levar você.

— Levar para onde, ô paraíba? Não saio daqui, não vou para lugar nenhum.

— Vou levar você para a floresta.

— Já entendi. Michelle me explicou esse negócio dos pesadelos. Você é meu inconsciente querendo me sacanear. Quer saber mesmo o que acho da Amazónia?! Quero que aquela merda arda toda! Aquilo é só árvore inútil, não tem serventia. Mas no subsolo há muito nióbio. Você sabe o que é nióbio? Não sabe porque você é índio, e índio é burro, é preguiçoso. O pessoal faz cordãozinho de nióbio. As vantagens em relação ao ouro são as cores, e não tem reacção alérgica. Nióbio é muito mais valioso que o ouro.

O índio sacudiu a cabeça, e agora já não era um índio, não era um veado — era uma onça enfurecida, lançando-se contra o presidente:

— Acabou!

Anhangá colocou um laço no pescoço de Jair, e no instante seguinte estavam ambos sobre uma pedra larga, cercados pelo alto clamor da floresta em chamas. Jair ergueu-se, aterrorizado, os piscos olhos incrédulos, enquanto o incêndio avançava sobre a pedra:

— Você não pode me deixar aqui. Sou o presidente do Brasil!

— Era. — Rugiu Anhangá, e foi-se embora.

Na manhã seguinte, o ajudante de ordens entrou no closet e não encontrou o presidente. Não havia sinais dele. “Cheira a onça”, assegurou um capitão, que nascera e crescera numa fazenda do Pantanal. Ninguém o levou a sério.

Ao saber do misterioso desaparecimento do marido, Michelle soltou um fundo suspiro de alívio.

Os generais soltaram um fundo suspiro de alívio. Os políticos (quase todos) soltaram um fundo suspiro de alívio.

Os artistas e escritores soltaram um fundo suspiro de alívio. Os gramáticos e outros zeladores do idioma, na solidão dos respetivos escritórios, soltaram um fundo suspiro de alívio.

Os cientistas soltaram um fundo suspiro de alívio. Os grandes fazendeiros soltaram um fundo suspiro de alívio.

Os pobres, nos morros do Rio de Janeiro, nas ruas cruéis de São Paulo, nas palafitas do Recife, soltaram um fundo suspiro de alívio.

As mães de santo, nos terreiros, soltaram um fundo suspiro de alívio.

Os gays, em toda a parte, soltaram um fundo suspiro de alívio.

Os índios, nas florestas, soltaram um fundo suspiro de alívio.

As aves, nas matas, e os peixes, nos rios e no mar, soltaram um fundo suspiro de alívio.

O Brasil, enfim, soltou um fundo suspiro de alívio — e a vida recomeçou, como se nunca, à superfície do planeta Terra, tivesse existido uma doença chamada Jair Messias Bolsonaro.

Publicado originalmente na revista “Visão” de Portugal. Reproduzido no blog do Juca Kfouri e no site Brasil 247

domingo, 23 de junho de 2019

Machado de Assis

“Bruxo do Cosme Velho”, alcunha criada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis é considerado o maior gênio da Literatura brasileira
“Bruxo do Cosme Velho”, alcunha criada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis é considerado o maior gênio da Literatura brasileira


No ano de 1878, acometido por sérios problemas de saúde, Machado de Assis decidiu mudar-se com sua esposa, Carolina, da cidade do Rio de Janeiro para Nova Friburgo, localizada na região serrana e conhecida por seus bons ares. A mudança não seria apenas física, pois a partir dali o escritor recuperaria o fôlego criativo, dando início à chamada segunda fase da prosa de Machado de Assis.
Até então, Machado de Assis era conhecido por seus livros voltados para uma estética romântica em visível decadência, que, graças ao sucesso da empreitada rumo ao realismo, ainda hoje não servem como cartão de visitas para o “Bruxo do Cosme Velho”, alcunha que ganhou por ter residido durante longos anos no bairro de mesmo nome. Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena ( 1876) e Iaiá Garcia (1878) foram escritos pelo jovem Machado de Assis, ainda distante do prosador irônico no qual ele se transformaria. Ainda assim, Machado de Assis distinguia-se dos demais: enquanto outros românticos falavam do amor e da paixão amorosa, ele concentrava a força de sua narrativa em personagens femininas ávidas por ascensão social, ainda que sob pena do sacrifício da vida sentimental.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Jacob Fortes: Caminheiro Solitário

Esta semana Jacob Fortes nos premia com mais uma peça escrita que nos conclama à reflexão. 
Campo-maiorense irrequieto, Jacob tem uma das mais lúcidas visões do âmago do homem simples e questionador.

CAMINHEIRO SOLITÁRIO. (Por Jacob Fortes. 20.02.2016).
Ansioso por transpor um monótono chapadão das gerais, norte de Paracatu, desses retratados pelo contista Afonso Arinos, tomei o alvitre, num minuto indeciso, de parar o veículo à porta de uma desfigurada baiuca, à margem da estrada, para obter do vendeiro informações que pudessem abonar a minha bússola de navegação. O chapadão, conhecido pelo codinome de “Rasgo do Corisco”, parecia expandir-se cada vez que eu imprimia ritmo célere à viagem.
Sem desligar o motor, mal pude entender-me com o quitandeiro, alcunhado de “Gajão”. É que nossa conversa, de súbito, encheu-se de embaraços: um andarilho, esfrangalhado, cara enfarruscada, ali em parada de repouso, entendeu de golfar ao vento, sonoramente, asneiras e sandices. Sua impertinência, digna de impugnação, inspirava indulto. Não valia à pena contender com um homem cujo palavreado desconexo e ininteligível, testificava o escangalho do seu estado mental. Outra atenuante é que esses andejos, sem raízes nos pés, tudo que possuem, além da vida e do prazer de pisar o chão das estradas, é um matolão, às costas, locupleto de burundungas, além, é claro, do hábito de falar sozinho consigo mesmo durante as suas marchas; tão solitárias quanto pachorrentas.
Vai caminheiro! Vai cumprir, resignadamente, o teu destino fatídico, a tua desventurada vida de andarilho: deambular, continuamente, como a um penitente, pelos caminhos; nasceste para a liberdade! À margem das estradas (e da vida), Deus há de apiedar-se de ti.

E quando o meu carro, por motivo de viagem, for instado a polvilhar-te de poeira ou de fuligem te peço desculpas por essa circunstância. Nesse momento a tua figura (esquálida, desamparada, estropiada e envolta em trapos repulsivos) irá engrandecer as bênçãos com que tenho sido distinguido, particularidade que me impõem glorificar a Deus por tudo, tempo em que LHO perguntarei, humildado, se é verdade, ou delírio, tanto lixo social sobre a terra perante os olhos insensíveis da opulência, da ganância, do desperdício.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O FIEL DE JUNQUEIRO - Jacob Fortes


Em linguagem ornada de eruditismo robusto, portanto de difícil assimilação por quem se houve em leituras fortuitas, o escritor Guerra Junqueiro (1850 – 1923) narra, por meio do soneto intitulado “O FIEL”, a comovente história de um cão que vivia nas ruas e delas retirava o seu sustento. Aliás, as ruas, no dizer do escritor “João do Rio”, são “a mais niveladora das obras humanas”. É que as ruas tudo admitem: o bem e o mal, o evangelho e o crime. As ruas são igualitárias, socialistas, agasalhadoras, ignoram a erudição, transformam o significado dos termos, criam o chulo e o baixo calão, impõem aos dicionários as palavras que inventam. Mas voltemos ao cão, do Abílio Manuel Guerra Junqueiro; a dissertação das ruas fica para 2016.
Era um reles cão, sem coleira, acostumado ao vento e ao frio.  Para alimentar-se garimpava sobejos nas lixeiras e monturos. Durante as chuvas fortes ou frios rigorosos, abrigava-se nos portais, nos vestíbulos, mas ao menor ralho levantava-se e saía — envergonhado — pedindo desculpas, com os olhos, por haver ocupado um lugar que não lhe pertencia. Inofensivo, jamais mordera uma criança indefesa, sequer ladrara com quem quer que fosse mesmo com os molambentos de sujidade sem par. Porém, não faltava quem o fizesse correr à pedrada.
Certa feita um mísero pintor, boêmio, deparou-se com o solitário cão. Ao vê-lo, de olhar plácido e acolhedor, disse-lhe o pintor: — "O teu destino é quase igual ao meu, eu sou como tu és, um proletário roto, sem família, sem mãe, sem abrigo, e quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto, eu não irei achar o meu primeiro amigo? Tu és o meu amigo e eu sou o teu irmão; partamos, pois, juntos. O sofrimento a dois minora a dor”.
Depois de anos ombreados, dividindo, por igual, privações e dores, o pintor, por obra desses acasos agenciadores de bons e maus sucessos, fora contemplado com a glória, que o libertou da miséria.  Ambos, libertos de tantas vexações, passaram a desfrutar de vida lauta. O cão dormia em confortável tapete à borda do leito do pintor. Ao despertar, de manhã cedo, cuidava de acariciar festivamente o seu amo. Mas o pintor, inebriado de abastança, desandou pelos caminhos da luxúria, das paixões e da esbórnia, circunstância que o afastava cada vez mais do seu leal rafeiro, de quem, aliás, já não tolerava as carícias, aborrecíveis. A indiferença do pintor imprimia ao cão um sentimento de desgosto, cujos olhos, lânguidos e doces, se tornavam melancólicos ao feitio da melancolia da imensidão oceânica. Velho, preterido e negligenciado, muitas vezes se via castigado, até batido pelos criados que lhe davam pontapés quando se punha a ganir chorando o seu destino. Por se haver nojento e pelos em queda, o dono impunha-lhe a detenção para que não o acompanhasse às ruas. 
Certo dia, pressentindo a morte disse a si: "Não morrerei sem antes despedir-me do meu amo; quiçá seja em seus pés o meu último gemido”. Ao meter-se no quarto do pintor, este bradou colérico contra o cão.
— Que fazes aqui, ó sórdido animal? Hei de pôr fim à tua impertinência!
Mas, simulando amizade, consertou.
Ó meu pobre fiel, tão velho e tão doente, acompanha-me, ainda que te custe.
E partiram os dois, no breu da noite, em direção ao cais, que ficava perto.   Aquele proceder, àquela hora, inspirou no cão um pressentimento nefasto. Enquanto o cão, pensativo, lançava o olhar sobre as trevas mudas recebia à face, com a imperturbável amargura do Nazareno, ósculos de Judas. E, resoluto, disse a si: “se este é o meu fadário pouco importa, foi ele que me abriu um dia a sua porta; morrerei se lhe dou com isso algum prazer.". Subitamente o pintor arremessou o cão nas águas profundas e geladas, mas junto, se foi o gorro de memoráveis recordações. De regresso a casa o pintor exclamava irado: “Por causa do cão perdi o meu estimado adereço, antes o tivesse envenenado; daria riquezas a quem pudesse reaver o meu gorro”.  Deitou-se, mas, inquieto, manteve-se insone durante o resto da noite pensando no gorro. E quando o clarão da manhã já era vívido ouviu bater à porta. Ergueu-se e foi abrir. Cheio de espanto recuou: era o fiel cão que voltara: arquejante, exânime, encharcado, a tremer, trazendo à boca o gorro do pintor. E tendo, com esse gesto, erguido para si o altar do sacrifício apenas tombou desfalecido! No plano terreal imolara as suas ilusões, mas restava o amparo da Celestial luz Santíssima.
Essa história de Junqueiro, real ou fabulosa, levará o leitor, inexoravelmente, a muitas ilações acerca da natureza dessas duas espécies que Deus engendrou e fixou sobre a terra: o homem e o cão.



sábado, 1 de agosto de 2015

RETALHOS DESBOTADOS, DAS RUAS. (Por Jacob Fortes. 17.07.2015).


Quem, por demoradas imersões, se der ao trabalho de mergulhar nas profundezas da mendicidade e examiná-la com toda minudência, concluirá que o ofício esmoleiro é protagonizado por duas confrarias: uma é real, outra inverídica ou, a bem dizer, uma verdadeira outra falsa. Dificílimo distinguir uma da outra, pois, numa indistinção, apresentam a mesma cara, o mesmo indumento, enfim todos os traços caracterizadores da face dolorosa e pungente da miséria humana, que confeita as ruas. O propósito de ambas é o mesmo: mendigar. A verdadeira, em decorrência das fatalidades ou destino insidioso, pede por justa precisão, pela imprestabilidade laboral: invalidez, cegueira, aleijão, hemiplegia, decrepitude arrimada em cajado, enfim, os que sucumbiram. A falsa, porém, pede por comodidade, por desfastio, por malandrice, por aversão ao trabalho, por desvergonha abominável; que não choca mais a ninguém. Os personagens da falsa mendicidade, — hábeis na extorsão pelo rogo, em nome de Deus — buscam na representação, na fantasia, no simulacro, os recursos para delinear um cenário de enfermidades, dores e aniquilamento, impossível de ser recusado por qualquer pessoa: crédula, incrédula, cauta, incauta. Se do sexo feminino, de pronto se dizem viúvas, desamparadas. Costumam, envoltas em chalés pretos, pedinchar durante a noite ocasião em que puxam, eventualmente, um ou dois petizes, tão sonolentos quanto andrajosos, mais das vezes alugados da vizinha; acumpliciada. Nesse cenário de engambelar e iludir, maior serventia terão os petizes de caras borradas ou confeitadas de bexigas. Pedinchar à noite atesta maior lugubridade; passa a todos, até aos sovinas, dolorosa impressão de confrangimento. Há dentre as farsantes as que têm vocação lamurienta, as chamadas carpideiras que, por terem facilidade de verter, eventualmente são até contratadas para prantear mortos durante os funerais; haja lenço, o pranto é verdadeiro.
Pedinchando na via púbica, nas calçadas, na sacristia, no vão das portas, a malandrice, dotada de grande vocação dramática, vai-se aprovisionando à custa das pessoas de boa-fé.  Mas os pedintes embusteiros sabem que a esmola é óbolo incerto, depende da generosidade e estado psicológicos das pessoas, das circunstâncias. Daí a necessidade do emprego de recursos de grande poder de convencimento e comoção dentre os quais os patéticos “atestados”, (apócrifos evidentemente), que dizem o tamanho e a natureza da desgraça que lhes vão por casa: o acometimento de graves enfermidades; a prole faminta e numerosa; o cadáver à espera de caixão, invencionices correlativas e acessórias conforme a ocasião e o espectador. Há casos, insólitos, em que até se rojam para esmolar, é recurso extremado para fazer emergir a caridade hesitante. Mas nisto fiquem atentos os avarentos, que tanto prezam o dinheiro, pois óbolos reles podem desgostar os malandros, circunstância que, via de regra, enseja praguejamento em chuva.
Se, no bairro em que exploram a caridade pública aparece algum neófito os decanos vitalícios martirizam-no como nas escolas aos estudantes calouros. Pontos de pedinchar de alta cotação, os mais rentáveis, são, por vezes, vendidos como se fossem cadeiras de engraxate.
Se a mendicidade verdadeira é instada a pedir, e o faz incomodamente, a malandrice esmola foliando, com enorme alacridade de espírito. Ela vê na mendicância não somente um meio de vida, mas uma pândega, uma faina das menos fatigantes, sem responsabilidade.

E enquanto não se pode distinguir o inverídico do real segue, à sombra da miséria verdadeira, o cortejo das práticas enganosas. A confraria sanguessuguense vai, à folia, amealhando provisões junto à toleima incauta dos que dão esmola. Enquanto existir mosaicos de povos e de consciências há de haver condutas picarescas: não há meios capazes (ainda mais quando se tem a descura do poder público) de dissuadir essa confraria da viciosa profissão: nem oferta de um bom trabalho, nem umas cócegas no dorso com corda de sedenho, nem um longo tour por essas enxovias bolorentas, mesmo porque muitos desses hipócritas são velhos frequentadores dos calabouços.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Eça de Queirós: Os Maias aborda a educação


Vamos iniciar esta semana falando de literatura e educação. Talvez termos indissociáveis quando imaginamos que a literatura é parte integrante do ser humano. A educação, mesmo que ao longo do tempo tenha seus altos e baixos, é vital para a sobrevivência da espécie humana. já que na sua ausência não teríamos evoluído a patamares tão assustadores.


Li com bastante interesse matéria de um jornal (eletrônico) de Portugal que traz tema tão palpitante. Fiquei curioso e motivado em ler obra de tal envergadura,a já que não recordo se sequer vi a minissérie televisiva.

Portanto, convido a você que milita na educação a, também, ler a matéria e se sentir motivado a fazer a leitura da obra de Eça de queirós.

CONFIRA A MATÉRIA AQUI!!!!!

domingo, 5 de abril de 2015

COGITAÇÕES. Jacob Fortes

Escritor Jacob Fortes
              Há momentos em que a mente abandona o seu posto de vigilância e, entre prostração e calundu, mergulha em profundos e silenciosos devaneios.  É uma circunstância inesperada. Numa introversão indefinida se põe a ruminar sobre quase tudo: o ontem, o hoje, o amanhã, enfim, um cortejo de vultos pardacentos dentre os quais figuram as vitórias, que tonificam; as derrotas, que deixam o travo; a desopressão pelos benefícios recebidos e concedidos; a compunção pelos atos malévolos (quem nunca os cometeu, ainda que involuntariamente, que se professe imaculado), mais das vezes acesos, martelando, fazendo o seu autor purgar em arrependimentos. É o seu jeito paciencioso de vingar-se.
           Enquanto perdura o alheamento letárgico, a mente se detém nas suas escavações particulares fazendo desfilar o cortejo das legendas nevoentas: saudades, de pessoas e coisas; lembranças: esquivas, desgastadas, memoráveis; a carta fechada do porvir; o jardim da mocidade — que se dizia eterno, imarcescível, — progressivamente emurchecido ante o escoamento incontornável dos anos. E o filme segue exibindo legendas múltiplas que se alternam entre a melancolia, a taciturnidade, a alacridade.
            Mas, assim como desperta o corpo que se estira em sesta dormitiva, os devaneios também acordam. A mente, como que alfinetada, estremunha-se de súbito e dá-se por encerrada a introspectividade.
                Reativado o radar da mente o nauta, que se houve retido por falta de bússola, dar prossegui-mento à faina de navegar. Restabelece-se, então, a rotina; o discernimento reassume o leme.  

                   Este enunciado, ainda que exprima apenas o imaginário do narrador, é factível; pode acometer a qualquer um. É o que sucede aos que apascentam o olhar na pradaria do vago ou nas baforadas de um cigarro.

sábado, 4 de abril de 2015


Sérgio Emiliano - Foto Facebook
Costumo sair cedo de casa. Deixo para trás cadeiras na calçada e nelas, ficam meus irmãos conversando amenidades, aproveitando a sombra e fazendo companhia para mamãe.
Havia chovido a noite toda e pelas paredes ainda molhadas, me fazem pensar que quase nada mudou. Na casa propriamente dita, nos vizinhos, no vaivém de pessoas indo ao mercado.
Ando rápido como quem foge apressado, como quem procura desesperadamente alguém para  salvar o seu dia. É a rotina.
Piso firme no asfalto sem querer deixar marcas, mas no fundo, desejando provar que a rua é minha, que a cidade e suas esquinas sempre irão me pertencer.
Na porta do colégio Intellectus pais deixam seus filhos banhados e fardados. Parecem acovardados, zumbis querendo mais duas horas de cama. Fico perplexo quando imagino o valor das mensalidades e tranquilo, segundos depois, quando calculo que nunca terei esse gasto. É o futuro do nosso país e talvez valha o investimento.
Na esquina há uma padaria já lotada de clientes. Mulheres idosas falam do preço do pão, da operação lava jato, de suas vidas insignificantes.
O barulho dentro do ouvido chega a doer. Passa a trombeira com gás, com água, com sacos de cimento.
Continuo andando rápido reconhecendo cada loja, procurando detalhes que não são vistos quando a cidade inteira acorda.
Para não abandonar o costume de procurar sombra, ando sobre a proteção das marquises.
O camelô ao lado do banco do nordeste monta sua banca de óculos e relógios chineses, a fila na loteria começa a aumentar e vem um idoso na minha direção fumando um cigarro ordinário. Fico triste ao constatar a tragédia do corpo, a velhice se escancarando como um tapa na cara.
Ao lado da entrada da loteria, fica um senhor preparando sorvete. Deu para sentir o cheiro das essências de limão e coco ralado, adicionadas num balde de água.
Passo pela loja da dona Pureza e lembro de nunca ter  conseguido 10 centavos de desconto nas compras que já fiz.
Uma criança orgulhosa e catarrenta passa de mãos dadas com a mãe vinda do interior. Queria segui-los. O que resolveriam na cidade? Entrariam na farmácia? Fariam exame de sangue?
Na lanchonete ao lado do Bradesco vejo a Vera da Caixa grudada no celular. De dentro, vem aquele cheiro de lugar recém-aberto misturado com o odor do alho, de carne crua, de água sanitária passada no chão.
Sigo tranquilo, pois o asfalto foi todo pintado com faixas para pedestres, os semáforos a pleno vapor e placas, muitas placas.
Nisso, passa um velho caminhão e deixa uma densa fumaça negra flutuando por entre as carnaúbas do passeio central.
Dobro rápido a esquina e chego aos Correios. O Cardosão sempre é o primeiro a chegar e o último a sair. Respiro fundo para mais um dia de rotina e vejo que eu também não estou sozinho. Os funcionários do Carvalho chegam, a Big Pão há duas horas funciona e o sol atinge a sua claridade total.
Um barulho familiar de carros e motos surge de repente e tudo parece que alcança o seu volume máximo.
Campo Maior acorda mais uma vez e eu, só desperto totalmente, quando ouço o tic-tac do cartão de ponto sendo batido.
A sexta-feira está próxima e serve como um alívio, um relaxante natural da rotina.

Sergio Emiliano.

sexta-feira, 13 de março de 2015

CORRUPÇÃO: NÓDOA QUE PERSISTE. (Por Jacob Fortes, 12.03.2015).


A corrupção vem de longe, chegou debaixo dos panos como passageira clandestina das caravelas.

Por mais que existissem controles enérgicos, monitorados por exatores régios de grande valimento, (governadores, ouvidores e provedores) imbuídos de poderes majestáticos, de prerrogativas supremas para vigiar as riquezas da Fazenda Real, cobrar o quinto, julgar e decidir, o fisco régio era driblado; insondáveis modos corruptivos vigiam: imagens devocionais recheadas de ouro.

Enquanto escoava o rito com que El-rei drenava as riquezas da colônia, oprimida, infetada de corruptos, os rebentos tupiniquins iam surgindo aos milhares, e, nestes, o ardor da liberdade. Suas aspirações libertárias fustigavam-lhes o sangue! Enquanto a emancipação amadurecia, aqui e acolá levantes separatistas glorificavam heróis da independência; pena de morte ou degredo. Finalmente, sem bacamarte, sem baioneta, sem clavinote, sem derramamento, a independência, — por meio apenas de um grito sonoro vindo de especialíssimas circunstâncias históricas —, se fez realidade. Vexados por séculos de exploração os tupiniquins cantaram, se refestelaram.   Porém, remanesceram as bactérias virulentas da corrupção, principalmente na política e na gestão da coisa pública. O que era tomado dos brasileiros à força, pelos mecanismos reinóis, passou a ser tomado à surdina, à matreirice, pelos corruptos e corruptores. Desgraçadamente o povo continua sendo defraudado por uma corrupção sombria e trágica, quase hegemônica. Nisto deriva o sobrepeso escanchado no cangote dos que, com seu trabalho, forjam a identidade brasileira; embora por vezes rotulados de tolos porque se pautam pela correção.

Enquanto a corrupção, viciosa, endêmica, se devota ao santo sacrifício de drenar os recursos públicos, a pátria, — cambaleante, emperrada, de semblante demudado, — desapressa os passos da prosperidade.

Tomara que as mãos equânimes do Supremo Tribunal Federal, ao rigorismo da lei, possam desvendar e punir os corruptos que, por meio de tramoias, vivem parasitariamente à custa do suor dos tributários brasileiros. O país — saqueado, esvaído, — já não tem sangue suficiente para saciar a gula de esponja de tantos fraudadores hematófagos. Ainda que os embusteiros — no papel de diversivos e entregues ao hábito de pretextar para não assumir responsabilidades —, aleguem que a culpa é de Getúlio Vargas por ter criado a Petrobrás, a crença é de que o primado da justiça se imporá. Com ou sem lava jato, urge água e sabão, abundantemente, para remover essa nódoa que persiste. 

terça-feira, 3 de março de 2015

APOLOGIA AO LIVRO. (Jacob Fortes) jacobfortesdecarvalho@gmail.com


Certa feita, quando menino, fui com o meu pai à cidade; cada qual no seu jumentinho. Chegamos cedo; a cidade despertava numa pachorra de lesma, mas o Mercado Central era madrugador. Enquanto meu pai comprava o essencial nas quitandas do Mercado eu o aguardava debaixo de uma figueira folhuda, ao lado dos jumentos de doma. Próximo a essa árvore existia um quiosque no qual funcionava um biclicletário. O propósito do bicicletário consistia em alugar bicicletas; era o meio de vida do proprietário, Senhor Xudu.
Naqueles áureos anos em que esse transporte foi lançado, possuir uma bicicleta era privilégio de poucos; endinheirados. A única forma de a grande maioria, de pobres, andar de bicicleta seria por meio da alugação.
Debaixo da árvore eu reparava o movimento. Assim que o bicicletário abriu as suas portas começaram a chegar os alugatários; em pouco tempo a frota de bicicletas já havia arribado. Lembrei-me das abelhas do meu sertão, em revoada matinal para encontrar o néctar das flores silvestres. Os clientes, depois que grudavam as mãos no chifre do biciclo, saíam com ar de felicidade. Não era pra menos. Pedalar, oferecendo a face para os beijos da brisa é sempre prazeroso, mesmo quando o percurso impõe farta sudação. Vim conhecer essa sensação agradável próximo à idade adulta quando, morando na cidade, pude ter os meus ganhos parcos, porém suficientes para alugar uma bicicleta.
Daí a pouco, chega mais um freguês:
— Senhor Tadeu Xudu, eu quero alugar uma bicicleta.
— As bicicletas foram todas alugadas. — Aguarde, se puder; em breve uma delas estará de volta.
Pois bem, os livros deveriam ser tão andejos e ter a mesma mobilidade das bicicletas de aluguel, ou das abelhas: continuamente saindo e retornando às bibliotecas. Em vez disso, os livros dormitam nos vãos das estantes, por vezes amontoados, ostentando as marcas visíveis do desuso, inclusive grossas camadas de poeira; em completo desserviço. Pior que essa constatação (quando visitei algumas), foi ouvir diretores se gabarem das suas bibliotecas estarem entupidas de livros; todo o acervo aquartelado, circunstância que reforça as estatísticas: o Brasil continental ainda lê pouco se comparado a pequenos países da Europa. Bibliotecas públicas não deveriam expressar a caixa mortuária dos livros, mas apenas os seus locais de baldeação: marcados por um movimento de vai e vem, aos moldes das bicicletas ou das abelhas.
Se os livros dormitam, maquilados de pó nos seus ataúdes, é porque o povo não lê quanto devia. O povo pode até se encontrar de bucho saciado, mas a mente, insaciável, espera, merece e precisa de continuada leitura. A leitura — maneira barata, e até chique, de entretenimento — ensina a escrever, afugenta a ignorância, prepara, qualifica, fornece experiência, amansa a incivilidade e a grosseria, aperfeiçoa a dimensão interpessoal, possibilita conhecer o mundo, a arte, a tecnologia, amplia a capacidade de percepção, permite avaliar o melhor caminho que a vida oferece, facilita a compreensão dos direitos de si e dos outros. A incorrigível insensatez humana, via de regra resistente a catequizações, por vezes se amolga ante os efeitos benéficos do desapaixonado e fiel companheiro livro, responsável, mais das vezes, por maravilhar as pessoas. Ele (“mudo que fala, surdo que responde, cego que guia, morto que vive”) tem o condão de ameigar os corações humanos. Divorciadas da leitura, as pessoas tornam-se vulneráveis aos caminhos insidiosos; às desditas.
É pesaroso constatar que os livros, mesmo os de boa semente, vão sendo rejeitados a cada dia, vencidos por inutilidades que bem se prestam a fomentar a alienação das pessoas tecnológicas.  Tem-se a impressão de que a glória dos livros parece esvair-se em ânsias de morte. Houve época em que os livros eram companheiros de vigília; não se separavam dos seus amos nem mesmo no interior de coletivos ou em logradouros. Depois passaram a dormitar nos vãos das estantes e, agora, já são encontrados pelos catadores de lixo que os olham com o pensamento voltado para a balança. Esse desuso faz supor que num futuro não muito distante correrá o risco de ser detido, e encaminhado a um manicômio, aquele que, em via pública ou no interior de um coletivo, for flagrado lendo um livro.
Porém, o desábito à leitura não é culpa dos diretores das bibliotecas, mas do modelo; do poder público que não estabelece políticas de motivação à leitura. Mas isso não é insolúvel. Se houver interesse, se as escamas dos olhos forem retiradas, basta colocar o tema em discussão para as ideias acudirem.  Exemplificativamente: que tal se ao alunado brasileiro, em todos os níveis, fosse concedido pontos, como parte da avaliação continuada, pela leitura de livros? Evidentemente a leitura seria aferida por meio de uma banca sabatineira. Que tal, ainda, se os pais vinculassem as mesadas dos filhos à leitura de livros? Que tal, também, se os pais infundissem nos filhos o hábito da leitura, principalmente naqueles que se permitem encabrestar pela internet e programas de televisão, por vezes repletos de vacuidade? Essas leituras, é claro, seriam também sabatinadas. Que tal, igualmente, se um livro retirado de uma biblioteca no estado de São Paulo pudesse ser devolvido por intermédio de uma biblioteca da cidade de Campo Maior-PI, Sobral-CE, Goiânia-GO e vice-versa?
A ideia é fazer o livro se deslocar em múltiplas direções, disseminando o saber em todos os ramos do conhecimento, procedimento similar ao das abelhas que, ao alçarem voo em busca do néctar, prestam valioso serviço à natureza e ao homem. Durante o seu trajeto, as abelhas vão espalhando, naturalmente, por sobre os ovários das flores, os grãos de pólen que carregam nas suas corbículas, realizando, desse modo, a polinização responsável pela fecundação de frutos e, consequentemente, das árvores.
A leitura — que floresceu após a escravidão rombuda — não pode morrer, ao contrário, precisa revigorar-se. Este momento, científico tecnológico e democrático, estaria conspirando contra a leitura?
Também, é preciso desmistificar; leitura não pode ser entendida como artigo de primeira classe, mas artigo de brasileiros: ricos ou pobres. Por que seria espantoso flagrar-se um boia-fria, ou uma lavadeira, fazendo palavras cruzadas ou lendo um Machado de Assis? O Brasil precisa socializar a leitura; não pode continuar lendo nanico, mas do tamanho do seu tamanho.  
Com um esforço bem direcionado do poder público, da estrutura educacional e da sociedade, é possível socializar a leitura e imprimir aos livros um papel parecente ao das bicicletas de aluguel ou das abelhas. 

Quando alguém busca um livro para ser seu companheiro de quem é a glória? Do livro que ressuscita do seu claustro ou de quem o fê-lo ressuscitar?